Cultura

Rui Moreira partilhou com Santiago de Compostela a experiência na gestão do património mundial

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Filipa Brito

O dia em que se celebram os 35 anos do reconhecimento de Santiago de Compostela como Património da Humanidade pela UNESCO foi assinalado pela capital galega com uma conferência subordinada ao tema “A gestão do Património Mundial da UNESCO”.

Numa jornada que promoveu a reflexão em torno do património mundial, a organização convidou o presidente da Câmara do Porto – cidade cujo Centro Histórico também integra a lista de proteção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – a partilhar a experiência da Invicta. Rui Moreira refletiu sobre o dever de preservação do património e a necessidade de continuar a atrair moradores para a cidade.

“O Porto chegou a património da humanidade mais tarde do que Santiago, a 5 de dezembro de 1996. Mas, desde então, o Centro Histórico do Porto teve uma assinalável mudança. Desde logo porque houve um enorme esforço de reabilitação no Centro Histórico do Porto, que estava nessa altura em muito mau estado. Essa reabilitação teve de facto um enorme impacto, não apenas no Centro Histórico mas em toda a cidade”, assinalou o autarca.

Os números traduzem a escala da intervenção, acrescentou o presidente da Câmara do Porto. “Nos últimos cinco anos houve 1742 transações – portanto, vendas de edifícios – refletindo um investimento de 508 milhões de euros. Desde 2008, foram reabilitados 688 prédios e foram intervencionados 44.000 metros quadrados de espaço público”, sublinhou.

Todo o trabalho desenvolvido foi enquadrado num plano de gestão que propunha uma visão integrada. “O plano de gestão encontra-se em processo de revisão, teremos um novo plano concluído em 2021”, notou Rui Moreira, aprofundando a visão do novo documento orientador: “Um Centro Histórico reabilitado, respeitador do património cultural e dos valores de salvaguarda do edificado monumental e corrente. Uma paisagem urbana emblemática, habitada e intergeracional, com comunidades ativas, visitantes e turistas, funcionalmente e economicamente ativo e autêntico, ambientalmente sustentável e ligado ao rio, e com projeção nacional e internacional”.

“História contada em pedra”

“O património é uma herança dos nossos antepassados, temos o dever de preservá-lo para as gerações futuras”, frisou ainda o presidente da Câmara do Porto. “São as memórias e a história contada em pedra. São as pessoas, os hábitos, os nomes das ruas, a cultura. O património não pode ser um obstáculo ao desenvolvimento, nem pode ser visto como tal, mas deve ser um catalisador de mudança, de atração de novas ideias, sem deixar de preservar os costumes antigos. Uma cidade só é sustentável se continuar a ter habitantes, e temos de ser capazes de os trazer para o Centro Histórico” realçou.

Nesse particular, Rui Moreira admitiu que o equilíbrio não é fácil de obter. Após o êxodo de muitos moradores, a vontade de voltar esbarra no obstáculo dos preços atuais da habitação. “Os espaços nas cidades são sempre ocupados. Se os moradores desaparecem, surge lá outra coisa. E, de facto, aquilo que surgiu foi uma estratégia privada de turismo que, de alguma maneira, resultou numa sobreocupação turística de algumas zonas da cidade. Isso causa algumas dificuldades, e Santiago de Compostela também sente isso no seu Casco Histórico. Esta grande pressão colocada pela voragem do turismo. Este equilíbrio é seguramente o mais difícil”, reconheceu.

“As cidades património mundial somos também sentimento. Não se nasce portuense, é-se portuense. Este sentimento que existe na cidade é, em si mesmo, um património”, concluiu Rui Moreira.

Na abertura da sessão, o alcalde de Santiago, Xosé Sánchez Bugallo, sublinhou que o reconhecimento da capital galega como património da UNESCO “serviu para que todos tomássemos consciência do valor do nosso património. É um capital imenso que possuímos. Implica uma enorme responsabilidade na sua preservação, mas é um enorme capital de futuro para a cidade e o país”.

“São 35 anos que temos de continuar a lembrar. Santiago foi o primeiro reconhecimento de património da humanidade para um bem da Galiza, em 1985. Tem um enorme significado de orgulho e identidade para as pessoas. Saber que o lugar que habitamos faz parte de um contexto que a máxima organização no âmbito da cultura considera que merece esse reconhecimento. Faz valer a pena o esforço pela sua preservação”, corroborou o secretário-geral da Cultura da Xunta de Galicia, Anxo Lorenzo Suárez.

A conferência “A gestão do Património Mundial da UNESCO”, que assinalou os 35 anos do reconhecimento de Santiago de Compostela como Património da Humanidade pela UNESCO, teve transmissão online e está disponível aqui.

As cidades do Porto e de Santiago de Compostela integram a rede AtlaS.WH (Património no Espaço Atlântico: Sustentabilidade dos Sítios Urbanos Património Mundial), juntamente com Bordéus, Edimburgo e Florença. Este projeto é cofinanciado pelo Programa Interreg Espaço Atlântico, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.