Política

Rui Moreira em entrevista ao Polígrafo acusa DGS de má gestão da comunicação desde o início da pandemia

Miguel Nogueira

O presidente da Câmara do Porto acusa a Direção-Geral da Saúde (DGS) de "uma comunicação catatónica" e exige "mensagens claras". Com o país a atravessar a segunda vaga da pandemia, Rui Moreira afirmou em entrevista ao Polígrafo, na SIC Notícias, que tem dificuldade em entender os efeitos práticos de "medidas intermédias", insiste em campanhas de comunicação pedagógicas dirigidas à população, para controlar a crise sanitária e evitar males maiores também na economia, e esclarece por que foi desativado o hospital de campanha. Pede ainda que os municípios deixem de ser encarados como "os bombeiros do Governo" e sejam ouvidos na definição das estratégias locais. 

Em conversa com o subdiretor de informação da SIC, Bernardo Ferrão, o autarca diz que a pandemia está atualmente "descontrolada" em todo o país, mas admite que a situação na Região Norte merece hoje "particular atenção". O foco das infeções, tal como no início da primeira vaga, voltou a ter maior expressão no interior do distrito do Porto, "onde se concentram fábricas, indústrias e um conjunto de atividades em que as pessoas não podem estar teletrabalho", diz Rui Moreira, que aponta ainda como causa do recrudescimento o facto de a Região estar "mal servida de transportes públicos", sendo muitas deslocações feitas em autocarros sobrelotados (pese embora, a nível local, a cidade do Porto tenha investido 420 mil euros para assegurar o reforço da oferta transitória da STCP).

"Estamos a viver uma situação extremamente preocupante", afirmou o presidente da Câmara do Porto, que não colhe o argumento de que os contágios se fazem sobretudo em família. "Claro se um membro do agregado familiar estiver infetado, pode contagiar aos restantes, mas não creio que esteja aí a origem. É um conceito ideológico difícil de aceitar, tal como dizer que ninguém apanhou o vírus no autocarro", criticou o edil.

Constatando que o Governo, o Parlamento e o próprio Presidente da República se veem encurralados entre "um setor securitário e um setor libertário", e que por isso se torna difícil "tornear e encontrar um rumo certo entre dois icebergues da opinião pública", Rui Moreira não se escusou, porém, a declarar que "a situação é de tal maneira grave, que algumas das medidas que estamos agora a tomar já deveríamos ter tomado há algumas semanas atrás".

Aconteça o que acontecer, daqui a duas, três semanas, muito provavelmente, vamos ter uma situação em que o Serviço Nacional de Saúde vai estar num extremo stress ou provavelmente em rutura.

Embora o confinamento seja, na sua opinião, a única medida verdadeiramente eficaz no controlo do vírus, não vai ser possível impô-lo novamente nos mesmos moldes e por um tempo tão prolongado, defendeu.

A solução reside, assim, na aposta de uma campanha massiva de comunicação, que elucide efetivamente a população para os comportamentos individuais a adotar. As mensagens devem ser esclarecedoras, de tal forma que inculquem no subconsciente da população um conjunto de hábitos, propõe o presidente da Câmara do Porto, que deu como exemplo aquilo que o Município tem procurado fazer, nomeadamente através da mais recente campanha de mupis presente em toda a cidade.

"Os portugueses são muito inteligentes a compreender mensagens simples", assinalou o autarca, que sugere uma aposta governamental em vídeos pedagógicos televisivos, reforçando a necessidade de investir numa comunicação bem estruturada, sem margem para informações díspares. E, apela, deve insistir-se junto dos jovens que a pandemia é um problema que todos afeta. "É preciso dizer que, se amanhã tiverem um desastre de mota, chegarem ao hospital e não puderem ser atendidos, porque lá estão pessoas com Covid-19 em cuidados intensivos, mais vale não discutirem a gravidade da situação. Infelizmente, isto não é explicado", observou.

Não é, pois, este o género de mensagens que Rui Moreira ouve nas conferências de imprensa da DGS, "que já cansam toda a gente". "A permanente precipitação de se tomar e anunciar decisões" conduz a uma "comunicação catatónica", acusa. "Parece que a única coisa que se discute são números e mensagens completamente obtusas", acrescenta.

Por isso, o presidente da Câmara do Porto não se escusa a afirmar que a DGS não tem prestado um bom serviço ao país. "Peço desculpa. O país tinha obrigação de ter aprendido com o que se passou em março e abril. Na altura, o Senhor Primeiro-Ministro disse que não era tempo de se mudar generais, porque era uma guerra. Acho que ganhámos a guerra em março e abril e não foi nenhum milagre. Mas a guerra do verão nós perdemo-la", constata.

"Continuamos a ter os mesmos generais a fazer as mesmas coisas e, muitas vezes, quase com fundamentos ideológicos que me incomodam imenso. Também é esta a ideologia do centralismo. Ao nível da Direção-Geral da Saúde, peço desculpa, são erros a mais. Andámos oito meses a discutir se as máscaras são boas ou não. Pareceu-me também hoje ouvir que os testes rápidos não são recomendados pela DGS. Porquê? Causa algum mal à saúde? Pois eu recomendo aos portugueses que podem, que façam os testes rápidos", em casos de situações de visitas a familiares que não podem esperar, referiu ainda Rui Moreira, que apontou vários erros de palmatória à comunicação que tem vindo a ser feita pelas autoridades de saúde.

Municípios têm garantido a ordem pública

Na conversa com Bernardo Ferrão, o presidente da Câmara do Porto sublinhou também que está preocupado com a economia, mas considera que para ela ficar de boa saúde há que agora atuar sobre o avanço do número de infeções. "Quanto mais depressa olharmos para a questão sanitária, para os cerca de 2 milhões de portugueses com mais de 65 anos, percebemos que esta tem de ser a nossa prioridade".

Rui Moreira afirma, por isso, que "tentar medidas intermédias, neste momento, parece desajustado". Como denuncia, as decisões não tiveram em conta as realidades locais dos 121 concelhos onde o Estado de Emergência voltou a vigorar desde segunda-feira. Nos meios urbanos, por exemplo, o recolhimento obrigatório será difícil de cumprir para quem trabalha na restauração, mesmo que os estabelecimentos encerrem às 22,30 horas, além de que aos fins de semana a pressão vai aumentar durante as horas da manhã em que são permitidas atividades.

"Não se envolveram os presidentes de câmara e as comunidades municipais. Ainda que, apesar de tudo, é o municipalismo que tem conseguido suprir muitas das carências que têm havido ao nível da Administração Central, do Governo e principalmente da DGS", revela Rui Moreira.

O autarca, que tem mantido um contacto mais próximo nestas matérias com o secretário de Estado Eduardo Pinheiro, destacado pelo Governo para coordenar a Região Norte, lamentou ainda que os municípios só sejam chamados a atuar "quando as coisas correm mal", como tem acontecido nos lares ou mais recentemente com o episódio das feiras e mercados, em que o Governo, depois de ter decidido proibir a realização destas atividades, passou a decisão para as autarquias.

Administradores hospitalares disseram que o hospital de campanha não era preciso

O presidente da Câmara do Porto revelou que, uma vez na iminência da segunda vaga, o Município antecipou respostas. "Há cinco semanas ainda tinha o hospital de campanha preparado no Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota. Havia uma suspensão do contrato de concessão e podia ser reativado a qualquer momento. Perguntei aos hospitais se precisavam dele ou se o queriam utilizar (...) Perguntei se era preciso; disseram que não". A mesma questão colocada aos administradores hospitalares foi direcionada para a Comissão da Proteção Civil do Distrito do Porto e a resposta foi idêntica.

"Não podia manter o hospital ativo. Tivemos de desmontar e entregar ao concessionário, de outra maneira o contrato estava interrompido sem causa própria". Ainda assim, informou Rui Moreira, "pedimos ao Governo que nos disponibilizasse a Pousada da Juventude", que já está apta a admitir doentes sem Covid-19, que devam ser segregados de lares onde existem infetados.

O presidente da Câmara do Porto chamou ainda a atenção que, nestas matérias, "o nível de competência dos municípios não foi aumentado. Somos um bocado os bombeiros do Governo", analisou, detalhando que a autarquia tem prestado todo o apoio aos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) da cidade, quer na disponibilização de viaturas, quer em espaços, como a cedência de uma escola para tratar doenças infetocontagiosas. "Temos feito um conjunto de ações. Agora, o que não podemos é fazê-lo com o mesmo voluntarismo de março e abril", reforçou.

Sobre a TAP: "Estranho que só o Porto dê prejuízo"

Questionado sobre o futuro da TAP, Rui Moreira declarou ser "estranho que digam que só o Porto dá prejuízo" e indaga se Lisboa dará algum lucro. "Certamente que não, neste momento tudo dá prejuízo", atalha.

Lamentou ainda que a companhia área nacional tenha abandonado o Aeroporto de Francisco Sá Carneiro e que só tenha regressado por oportunismo, quando verificou, através de outras companhias, como a United Airlines que ocupou um espaço vazio nos voos para Newark, que o Porto "era um bom negócio". E aproveitou a ocasião para esclarecer que "a Câmara do Porto nunca deu um tostão a uma companhia área".

Sendo agora o Estado o maior acionista da TAP, o autarca exige o mesmo tratamento para todos. "Como empresa pública em que Portugal vai investir muitos milhões, é normal que o interesse público seja visto sob o ponto de vista do território nacional, que inclui os três aeroportos continentais e Madeira e Açores".

Acreditando que a aviação só retomará o pleno funcionamento "em 2024/25", o presidente da Câmara do Porto disse ainda que vai ser preciso investir em voos que, mesmo não sendo lucrativos, são importantes para o turismo e para as atividades económicas das regiões.

Questionado quanto ao futuro na presidência da Câmara do Porto, Rui Moreira informou que ainda não decidiu se se candidatará ao terceiro mandato. "Anunciei que era minha intenção fazer só dois mandatos, acho que seria o natural. Confesso também que abandonar a cidade nesta altura me deixa mais preocupado", partilhou, recordando que da primeira vez que se candidatou só tomou a decisão em abril.