Sociedade

Histórias da cidade: uma capela com lugar de privilégio na Feira do Livro

Filipa Brito

Quem ainda aproveitar a oportunidade, neste domingo, para percorrer os expositores da Feira do Livro, nos Jardins do Palácio de Cristal, também pode descobrir a história da capela que tem lugar privilegiado no festival literário da cidade.

A Capela de Carlos Alberto, construída na Avenida das Tílias no século XIX, tem uma história simultaneamente ilustre e atribulada. Foi erguida em memória de Carlos Alberto, Rei da Sardenha de 1831 até 1849, ano em que abdicou na sequência da derrota na Batalha de Novara. Tendo-se exilado no Porto, o monarca - pai de Vítor Emanuel II, o responsável pela unificação da Itália - morreu três meses depois de chegar à cidade Invicta. Mas o seu nome perdura na memória do Porto, sobretudo com a praça que o homenageia (e o teatro que também toma o seu nome), mas igualmente com a discreta capela localizada nos Jardins do Palácio de Cristal.

A iniciativa de construir uma capela em memória de Carlos Alberto partiu da sua irmã, a princesa Frederica Augusta de Montléart. E o local escolhido deveu-se à última residência de Carlos Alberto: à chegada ao Porto, o monarca começou por alojar-se na hospedaria de António Bernardo Peixe, no Palacete dos Viscondes de Balsemão (na atual Praça de Carlos Alberto).

O Rei da Sardenha também habitou durante algum tempo num prédio da atual Rua de D. Manuel II, muito próximo do Palácio dos Carrancas (espaço que atualmente alberga o Museu Nacional de Soares dos Reis), e instalou-se por fim na casa de campo de António Ferreira Pinto Basto, na Rua de Entre Quintas, uma propriedade denominada Quinta da Macieirinha, atualmente incorporada nos Jardins do Palácio de Cristal, e onde funciona o Extensão do Romantismo. E foi aí que Carlos Alberto morreu, a 28 de julho de 1849.

Construção atribulada

Cinco anos depois iniciava-se a construção da capela em memória de Carlos Alberto. Frederica Augusta de Montléart, que tinha elaborado o projeto, com a ajuda do arquiteto Joaquim Costa Lima, requereu à Câmara do Porto que lhe cedesse, por compra ou aforamento, terreno para erigir a capela o mais próximo possível da Quinta da Macieirinha. A Câmara, presidida pelo Visconde Trindade, aprovou o projeto e também a cedência gratuita do terreno.

A 17 de maio de 1854 tinha lugar a cerimónia de lançamento da primeira pedra da capela, sob a qual ficou um pergaminho do respetivo auto, algumas moedas com a efígie do Rei Carlos Alberto e um texto da própria princesa. Mas o processo de construção iria revelar-se muito demorado.

Segundo pode consultar-se no sistema de informação para o património arquitetónico, logo em 1854 Frederica Augusta de Montléart manifestou o seu desagrado, através de carta enviada de Paris, devido à lentidão das obras e ao não cumprimento do prometido pelo mestre pedreiro António Lopes Ferreira. As ausências frequentes da princesa dificultaram o processo e levaram a que uma série de decisões sobre a construção fosse tomada pelo mestre pedreiro - o que até gerou uma polémica nos jornais devido à alegada falta de coerência estética da capela, cujas faces laterais e traseira não mostram harmonia com a frente.

Os protestos da irmã de Carlos Alberto repetiram-se em 1858, mas as obras apenas se dariam por concluídas a 25 de dezembro de 1860. No dia seguinte foi rezada a primeira missa na capela. Contudo, os trabalhos iriam prosseguir: em 1865 ainda ali foi instalado um órgão de tubos, e em 1881 chegou a escultura em mármore de São Carlos Borromeu, executada em Paris pelo escultor francês Alexandre Oliva.

Doação à Câmara do Porto

Em 1863, a princesa Frederica Augusta de Montléart doou a Capela de Carlos Alberto ao Rei de Portugal, D. Luís. Há poucas informações sobre a utilização do espaço a partir dessa data, mas o sistema de informação para o património arquitetónico dá conta que, em 1947, o órgão da capela foi saqueado.

A Capela de Carlos Alberto foi doada à Câmara do Porto em 1950, e no ano seguinte dar-se-ia o desmantelamento do órgão e venda dos tubos.

A partir de data incerta, a capela deixou de receber sessões de culto e estava fechada. Até que, no ano de 2009, foi celebrado pela Câmara do Porto um acordo de cedência do espaço a diferentes confissões: a comunidade cristã ortodoxa, a igreja ortodoxa russa e a igreja luterana.

E, assim, chegou aos nossos dias a discreta capela consagrada a Carlos Alberto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Numa placa inscrita na fachada lateral direita da capela pode ler-se: "Reinou como um justo, combateu como um forte e morreu como um santo". O corpo de Carlos Alberto foi trasladado para Itália, mas a sua capela ficou como espectadora privilegiada da Feira do Livro do Porto.