Cultura

Histórias da cidade: Há um sítio de proporções perfeitas que não é um lugar, é um sentimento. Ou vários.

  • Cláudia Brandão

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Filipa Brito

Uma obra de arte de proporções perfeitas, de matéria maciça, nem sempre unânime e de onde jorra vida continuamente. Por momentos, quase podíamos estar a falar da própria cidade do Porto. E estamos, na verdade, quando falamos do mítico “Cubo”. No Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que se assinala a 18 de abril, marcamos lugar no sítio do costume. A Praça da Ribeira é, também aqui, ponto de partida e de chegada.

José Rodrigues não nasceu no Porto, mas escolheu-o. Escolheu o sentimento portuense e, como sítio, a Ribeira. Era onde mais gostava de passear com a família, onde ia comer pataniscas, onde as ruas lhe despertavam maior curiosidade.

Quando foi convidado para desenhar uma obra que enchesse o espaço da Praça da Ribeira, o mestre das artes plásticas não quis dar àquele lugar algo que fosse menos do que perfeito. Assim se ergueria, em 1983, entre o chafariz almadino e as águas do Rio Douro, o “Cubo”. Assim, sem mais, uma peça de proporções perfeitas que se tornaria o coração da Ribeira, batendo em sintonia com esse “período almadino” que, na segunda metade do século XVIII, foi, para o Porto, um dos mais marcantes, significando uma renovação do velho burgo e a configuração da nova cidade.

Deste cubo se disse ser uma ofensa para a dignidade da cidade, que devia ser pintado ou retirado. Houve quem simplesmente admitisse não compreender o significado de uma obra daquelas na Ribeira. Crente de que "as obras de arte pública são para quem as vive", José Rodrigues deixou a cidade viver o – a partir daí também seu – Cubo e, como afirma a especialista em arte pública, Laura Castro (recentemente nomeada para o cargo de diretora regional de Cultura do Norte), a arte contemporânea fez o resto: em vez de dar significado a algo, esperou que ele fosse construído, que nascesse da relação que as pessoas viriam a construir com a escultura.

E hoje a Praça que é “da Ribeira” é, de quando em vez, calorosamente chamada por “Praça do Cubo”, com a obra do escultor e artista plástico a assumir o papel de cartão de visita e motivo de atração. “Sem diversidade não há cultura”, era aquilo em que acreditava para responder a algumas críticas.

O Cubo portuense é uma das faces mais visíveis de um artista que sempre gostou de provocar, de seguir a criatividade, a curiosidade. Sem receio e com uma disponibilidade incondicional, José Rodrigues arcou com as polémicas com estofo. O que ele pedia apenas era que a Câmara do Porto deixasse sempre a fonte do Cubo com água. A partir daí, que o deixassem trabalhar, que lhe dessem sempre desafios. José Rodrigues era um homem do novo.

Sete anos depois da instalação do “Cubo da Ribeira”, a escultura ganharia um novo e permanente observador: a estátua de “São João”, de João Cutileiro. Juntando-se, com humor, à polémica em volta do Cubo, o mestre escultor confessava, à época, que esperava que a sua peça desencadeasse “uma polémica pelo menos tão violenta. Se isso não acontecer, será um horror. O pior que podem fazer a um artista é deixar a sua obra passar despercebida”.

Em 2019, numa palestra a propósito dos 35 anos da obra, organizada pela Casa Comum da Universidade do Porto, a filha de José Rodrigues admitiu que o pai pensava da mesma maneira, quando, perante uma notícia de primeira página pouco favorável, lhe respondeu “Filha, mais vale que digam mal do que não digam nada”.

As várias faces de uma amizade

José Rodrigues era pessoa de partilhar; para ele, a arte era para todos, e faltarão linhas para falar de tudo o que ofereceu, não só ao Porto, mas ao país e ao mundo. “Não consigo parar, tenho medo da rotina", admitiria numa entrevista, em 2001.

Estudou e foi professor na Escola Superior de Belas Artes, fundou a Árvore Cooperativa Cultural, ergueu o Monumento ao Empresário, na Avenida da Boavista, expôs em Tóquio, Paris e Macau (e no Porto, claro), e ainda são dele algumas ilustrações de livros de Eugénio de Andrade, Jorge de Sena e Vasco Graça Moura.

Ao Porto deixou, ainda, um sonho pessoal: a Fundação José Rodrigues, que abriu na recuperada Fábrica Social, onde eram produzidos chapéus, precisamente onde o escultor teve, durante duas décadas, o seu atelier. São salas de exposições (com especial destaque para "Retrato de uma amizade", em 2015, baseada na sua amizade com Eugénio de Andrade), com obras suas e que colecionou, espaço de residências (que recebeu o InResidence), um auditório e um serviço educativo para incentivar a criação artística dos mais jovens.

“Tudo em mim são coisas do destino, eu pouco tenho a ver com isto, alguém me empurra. Desde o princípio olhei para esta fábrica e senti um fascínio. Mas o que é que foi? Não sei”, afirmava.

Quando o artista morreu, em setembro de 2016, a cidade onde sempre disse que queria morrer esteve de luto durante dois dias. E não mais. Daí até hoje, é a celebrar e a aprender que se vive a arte de José Rodrigues, o seu legado de “brilhantismo, diversidade e dinamismo”, sublinhado, na altura, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Para quem chega pela primeira vez à “Praça do Cubo”, podem ser apenas 600 quilos de bronze em 2 metros x 2 metros. Mas para muitos outros, e como diria Augustina em relação ao Porto, “não é um lugar, é um sentimento”. Um sentimento de proporções perfeitas, perfeitamente complexas.