Política

Histórias da cidade: conheça a primeira mulher distinguida com uma medalha municipal

Foram, ao longo da história, centenas as pessoas e entidades já distinguidas pela Câmara do Porto com uma medalha municipal, seja na categoria de Honra da Cidade, de Mérito, ou de Bons Serviços. A primeira distinção dessas atribuída a uma mulher surgiu em 1948 e reconheceu o seu empenho em prol do Teatro Municipal do Porto - Rivoli.

O seu nome era Maria de Assunção Fernandes Borges e ficou associada a um dos mais importantes espaços culturais do Porto, mas também a uma das principais unidades industriais do país, precisamente por dar-lhe o nome. Entusiasta da cultura, particularmente da música, a ela se deve a existência do Teatro Rivoli tal como o conhecemos hoje. E foi das primeiras letras do seu nome próprio e apelido que surgiu o nome Mabor, a fabricante portuguesa de pneus que empregou muitos portuenses.

A marca de Maria de Assunção Fernandes Borges no Porto e no país já era bem vincada quando, em 1948, a Câmara do Porto deliberou atribuir-lhe a medalha municipal de mérito artístico, grau Ouro, por altos serviços prestados à cultura artística do Porto. A proposta partiu do vereador Carlos Clavel do Carmo, em reconhecimento dos "auxílios indispensáveis" dados pela benemérita às atividades da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.

"Uma Senhora a quem outro objetivo não norteia, senão o de servir a sua Arte e engrandecer a urbe portuense", descreveu o vereador, segundo pode ler-se na ata da reunião. "A Exma. Senhora Dona Maria da Assunção Fernandes Borges, a quem um amor estreme pela Música inspirou esta simpática missão que vem desempenhando, e com a qual satisfaz, do mesmo passo, as exigências do seu bairrismo devotado, e os anseios do seu espírito de Artista, requintado", acrescentou.

A distinção foi entregue no dia 9 de agosto de 1948 e reconheceu o empenho de Maria de Assunção Fernandes Borges nas suas diversas atividades. O seu pai, Manuel José Pires Fernandes, era sócio do Banco Borges & Irmão em 1919 e tinha fundado, alguns anos antes, o Teatro Nacional, reestruturado a partir de 1928 para dar lugar ao atual Rivoli, inaugurado a 20 de janeiro de 1932.

Assumindo o Rivoli como um projeto pessoal, após a morte do seu pai, Maria de Assunção Fernandes Borges (veja o cartão de visita da empresária do Rivoli, disponível no Arquivo Municipal do Porto) dirigiu o teatro durante mais de duas décadas, imprimindo uma assinalável pujança à sua programação, da ópera às variedades e ao cinema. Mas sobretudo na música: grande melómana, trouxe ao Rivoli grandes vultos nacionais e internacionais. A ela se deve, também, o friso em baixo-relevo, da autoria do escultor Henrique Moreira, que ainda hoje se pode ver no topo da fachada.

A benemérita, cuja memória foi também perpetuada na Rua de D. Maria Borges, em Nevogilde, ficaria igualmente associado para sempre à indústria, já que fábrica de pneus Mabor deve o seu nome a Maria Borges. O seu marido financiou grande parte da construção da unidade fabril erguida em Lousado, no concelho de Vila Nova de Famalicão, ainda que a companhia tenha sempre mantido a sua sede na Avenida dos Aliados. Dada a relativa proximidade das instalações fabris com a cidade Invicta, muitos portuenses lá trabalharam.
Lançada inicialmente em parceria com os americanos da General Tire, a Mabor uniu-se em 1990 à alemã Continental, tendo sofrido uma extensiva modernização. 

A medalha municipal atribuída a Maria de Assunção Fernandes Borges foi a segunda de sempre entregue pela Câmara do Porto, sucedendo ao arquiteto Acácio Lima, distinguido em 1942.

As medalhas municipais destinam-se a distinguir pessoas singulares ou coletivas, nacionais ou estrangeiras, que se notabilizarem pelos seus méritos ou feitos cívicos e ainda funcionários do município, pelo desempenho das suas funções ou missões.

No caso da medalha municipal de Mérito, com a qual Maria de Assunção Fernandes Borges foi agraciada, "destina-se a galardoar quem tenha praticado atos de que advenham assinaláveis benefícios para a Cidade do Porto, melhoria das condições de vida da sua população, desenvolvimento ou difusão da sua arte, divulgação ou aprofundamento da sua história, ou outros atos de notável importância, justificativos deste reconhecimento no campo artístico, científico, cultural, desportivo ou profissional", detalha o regulamento das medalhas municipais.