Ambiente

Histórias da cidade: as fontes subterrâneas que dão nome à Arca d'Água

Filipa Brito

Quem desfruta dos amplos espaços do Jardim de Arca d'Água, das suas árvores frondosas, do coreto e do lago que ali se situam, poderá nem imaginar que sob os seus pés se encontra um reservatório que outrora serviu de ponto central para o abastecimento de água à cidade.

É, precisamente, da existência desse reservatório que vem a designação Arca d'Água - como são usualmente conhecidos tanto o jardim como a praça onde aquele se encontra, ainda que o nome oficial de ambos seja Nove de abril, em homenagem à data da Batalha de La Lys, em 1918, momento mais marcante da participação portuguesa na I Guerra Mundial.

A estrutura subterrânea sobre a qual se encontra o Jardim da Praça de Nove de abril (ou seja, o Jardim de Arca d'Água) remonta ao início do século XVII. O crescimento da população do Porto, e a sua consequente concentração, agravaram os problemas de abastecimento de água à cidade, sendo necessário aproveitar o manancial de Paranhos - para tal foi construída a Arca d'Água.

Recorda a empresa municipal Águas do Porto que foi em 1597, durante o reinado de D. Filipe I, que se iniciou o encanamento do manancial de Paranhos, para o aproveitamento das três nascentes que ali se encontravam. A obra ficou concluída em 1607 e passou a permitir o transporte da água até à cidade, alimentando várias fontes e chafarizes ao longo do seu percurso.

Este tesouro escondido da cidade do Porto já esteve disponível para visitas, mas atualmente não é o caso, por razões de segurança. A título excecional, porém, a estrutura abriu portas para Joel Cleto, arqueólogo e divulgador de História e Património, a pretexto de um episódio do seu programa "Caminhos da História", no Porto Canal, dedicado aos segredos da Arca d'Água. (assista ao programa na íntegra aqui)

Os arcos das galerias escavadas sob o Jardim de Arca d'Água protegem as nascentes que ali se encontram, e o aqueduto subterrâneo para o transporte da água subsiste até aos nossos dias, notou Joel Cleto: "O canal desce desde a Arca d'Água até à Praça dos Leões, a praça onde encontramos hoje o edifício da reitoria da Universidade do Porto. Nestes túneis temos um aqueduto que transporta este manancial de água".

Com o decorrer dos anos, as obstruções e as fugas obrigaram a sucessivas reparações desta estrutura subterrânea, trabalhos que nem com o Cerco do Porto (1832-33) se interromperam. Entre 1825 e 1838, centenas de homens escavaram no granito um novo aqueduto para as águas que nascem debaixo do atual Jardim de Arca d'Água, uma obra de engenharia que transformou a rede de abastecimento de água do Porto na maior e mais farta da época.

Entre o final do século XIX e o início do século XX, esta infraestrutura deixou de ser a fonte principal de abastecimento de água do Porto, dando-se início à captação e distribuição domiciliária das águas dos rios Sousa e Ferreira.

Monumento oculto da história do Porto, a fontes que dão nome à Arca d'Água foram também testemunhas de um invulgar episódio das letras portuguesas: Antero de Quental e Ramalho Ortigão travaram, a 6 de fevereiro de 1866, um duelo no local onde em 1928 foi inaugurado o jardim. A questão entre os dois escritores refletia um confronto mais abrangente, de gerações, entre duas correntes literárias. Ramalho Ortigão sofreria ferimentos num braço, mas o antagonismo entre os dois autores seria ultrapassado, distinguindo-se ambos no movimento que introduziu o realismo em Portugal.