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Histórias da Cidade: "A Regaleira não é uma coisa só nossa, é do Porto", garantem irmãos Passos

  • Ana Isabel Moura

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De geração em geração. É assim que o histórico restaurante A Regaleira, agora sediado no número 83 da Rua do Bonjardim, se tem mantido firme. A casa onde nasceu a francesinha celebra 90 anos em 2024 e, desde a sua fundação, às mãos de António Passos, conseguiu sempre preservar-se no seio familiar. Nove décadas depois, entre mudanças e percalços, os netos Francisco e Tiago fazem questão de fazer perdurar o ADN da marca e têm o sonho de ver o negócio saltar para as mãos dos descendentes.

Não serão muitos os restaurantes ou lojas que, ao longo de várias décadas, conseguiram permanecer nas mãos da família de quem os fundou. Mas A Regaleira é um bom exemplo de que, com orgulho e resiliência, o caminho da preservação de um legado pode ser exequível.

Noventa anos após António Passos ter fundado o restaurante – que viria a ficar nas bocas do mundo por ser o berço da francesinha –, os netos Francisco e Tiago continuam a arregaçar as mangas para não deixarem cair um testemunho que, ao longo de nove décadas, nunca se descolou do círculo familiar.

"Nunca quisemos deixar o negócio morrer. Sentimos que A Regaleira não é uma coisa só nossa, é uma coisa do Porto. Há muita gente que, ainda hoje, chega aqui e fica contente por não termos deixado cair a tradição", recorda Francisco, o irmão mais novo da dupla Passos.

Temos aqui gerações de clientes que não deixam nunca de cá vir. É isso que nos faz sentir que este restaurante também é um pouco da cidade do Porto

Localizado no centro da Invicta, o estabelecimento – agora situado na porta ao lado da morada original – recebe um núcleo de clientes que já frequentam o local há vários anos, mas, na perspetiva dos irmãos Passos, o "melhor é que já trazem os filhos e os netos" para saborear a iguaria.

"Temos aqui gerações de clientes que não deixam nunca de cá vir. É isso que nos faz sentir que este restaurante também é um pouco da cidade do Porto", refere Tiago, notando que esta lealdade foi um dos fatores que deu fôlego aos irmãos para reerguerem o negócio, depois de, em 2018, este ter passado por um período menos próspero.

A reboque da especulação imobiliária, a família "foi praticamente obrigada" a deixar o espaço onde abriu portas pela primeira vez, mas a vontade de escrever um capítulo deu asas ao lado empreendedor dos irmãos. "Juntamo-nos e decidimos tentar abrir isto novamente. Unimos forças e conseguimos continuar o legado", explicam.

Depois do conturbado período da pandemia, A Regaleira voltou a servir a mais antiga francesinha da cidade em 2021. Apesar de o restaurante ter sido fundado em 1934 – quando ainda servia comida tradicional portuguesa –, foi na década de 1950 que a sande que se come de faca e garfo foi trazida, pela primeira vez, para a ementa.

Apesar de não terem chegado a conhecer o avô – que lhes contaram ter sido "um portista ferrenho e um homem com um papel ativo na cidade" –, Francisco e Tiago têm a história da criação da iguaria na ponta da língua.

A francesinha não era considerada uma refeição, era mais um lanche ou uma ceia

"O Daniel David da Silva é a cara da francesinha. Era um emigrante francês que retorna a Portugal e vem parar à Regaleira. Chegou aqui com a ideia base de uma sandwich francesa e começa a criar, com as matérias-primas que existiam no nosso restaurante, como a salsicha e a linguiça, que já eram usadas em outros petiscos, um prato para clientes habituais. Este petisco era apenas servido ao balcão sem se pensar em dar-lhe um nome. O molho também acabou por resultar de uma redução de caldos que serviam para outras coisas", conta Francisco, lembrando que foi o "passa palavra entre os clientes habituais" que impulsionou a fama do prato portuense.

O sócio do espaço explica que, na época, "a francesinha era servida, única e exclusivamente, ao balcão porque a sala era apenas usada para um serviço de primeira, e a francesinha não era considerada uma refeição, era mais um lanche ou uma ceia".

Era um mulherengo de primeira

Também o nome atribuído à iguaria tem uma explicação. "Consta que o Daniel era um mulherengo de primeira. Na década de 1940, esteve em França e a mulher francesa já usava a saia curta e já era uma mulher mais à frente do que a portuguesa. E como o molho em questão era tão picante, em homenagem à mulher francesa, que era considerada uma mulher mais picante do que a portuguesa, foi-lhe, então, dado este nome", justifica o caçula da família Passos.

Tantos anos depois, a receita continua a ser intocável. No entanto, os dois irmãos dizem não estar apenas agarrados ao passado.

O negócio também se faz de transformação. "Inovamos no espaço, que é realmente novo", revela Tiago, referindo-se ao novo estabelecimento, que conta com dois pisos. No último, encontra-se uma verdadeira galeria de arte, onde foram expostos, a propósito da celebração dos 70 anos da criação da francesinha, em 2022, quadros e esculturas de diferentes artistas ligados à cidade.

"Criamos ainda uma cerveja que foi especificamente pensada para acompanhar o nosso molho", esclarece Francisco, acrescentando que a ideia de se produzir uma bebida surgiu do irmão.

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Gostava muito que a minha filha fizesse exatamente aquilo que o avô fez e que o pai fez

Para o futuro, os dois irmãos apontam como maior desejo manter o negócio nas mãos da família Passos, tendo o intuito de o transferir para os descendentes.

"Gostava muito que a minha filha fizesse exatamente aquilo que o avô fez e que o pai fez. No fundo, aquilo que nós estamos a fazer. Ainda no domingo esteve ali na caixa e só tem 10 aninhos. Acho que é muito por aí que se consegue manter vivo este legado", confessa Tiago, que não quer ver cair o "conceito familiar" que carateriza o negócio e que, segundo Francisco, "vai além da entidade patronal".

"O Manuel Mota, um dos nossos funcionários, também tem cá o filho dele a trabalhar connosco", conta o irmão mais novo, a título de exemplo.

É um exemplo de como as novas gerações têm a capacidade e a oportunidade de tomar as rédeas do negocio

Embora estejam recetivos a todos os que quiserem saborear as iguarias da casa – que não se resumem à rainha da ementa –, os irmãos não escondem que o turismo em massa os preocupa.

"Sou sincero, tenho medo que seja uma coisa passageira. Daí que a nossa prioridade se mantenha em fixar o nosso cliente local, o cliente da cidade. Claro que temos a porta aberta para todos os turistas, mas este é um restaurante da cidade que quer manter a sua identidade. A nossa preocupação não é rodar mesas, é saber que as pessoas que estão nesta mesa voltam amanhã", sublinha Tiago, em relação ao estabelecimento que faz parte do programa municipal Porto de Tradição, tendo recebido a honrosa placa em dezembro de 2023.

"Para o Município do Porto é sempre uma noticia positiva estarmos a comemorar 90 anos de um estabelecimento que, sendo uma referência da cidade, estando por isso classificado no programa municipal Porto de Tradição, é também um exemplo de como as novas gerações têm a capacidade e a oportunidade hoje, face à dinâmica socioecónomica da cidade, de tomar as rédeas do negócio e manter o legado de forma mais inovadora e adequada aos tempos atuais", sustenta o vereador das Atividades Económicas, Ricardo Valente.