Sociedade

Histórias da cidade: a ponte ferroviária que foi estreada por uma mulher a pé

Filipa Brito

Completaram-se, na quarta-feira, 143 anos sobre a inauguração da ponte ferroviária de D. Maria Pia, um momento que marcou a conclusão efetiva da ligação, por comboio, entre Lisboa e o Porto.

A elegância da ponte não foi beliscada pela sua respeitável idade, permanecendo como um ex-líbris da cidade Invicta. Encerrada em 24 de junho de 1991, tendo sido substituída pela Ponte de São João, a Ponte de D. Maria Pia é globalmente admirada como uma das obras-primas do francês Gustave Eiffel. E tem a curiosidade de ter sido estreada por uma corajosa mulher, que a atravessou a pé, ainda antes da travessia inaugural do primeiro comboio. Mas já lá vamos.

A construção da Ponte de D. Maria Pia iniciou-se a 5 de janeiro de 1875, após vários anos de discussão e análise dos três projetos de traçado para vencer o vão do Rio Douro: seria adotada a opção de atravessar em direção a Campanhã.

Mas o debate já durava há bem mais tempo. A Gazeta dos Caminhos de Ferro cita um episódio exemplar dos primórdios do transporte ferroviário em Portugal: "Discutindo-se nas Cortes, em 3 de fevereiro de 1846, a ligação ferroviária de Lisboa com o Porto, então considerada em primeiro lugar, o conde do Lavradio assegurava que tal não se justificava porque, entre Lisboa e Porto, não havia por ano mais de seis mil passageiros. Costa Cabral retorquia-lhe, perguntando: E se forem trezentos mil? - Isso não é possível, insistiu Lavradio, porque não há no país viajantes para esse movimento". A Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses apenas seria formalmente constituída em junho de 1860.

Voltando à Ponte de D. Maria Pia, a sua construção foi um feito de engenharia para a época - tinha à data o maior arco em ferro do mundo. Há, no Arquivo Municipal do Porto, várias imagens da ponte em processo de construção (aqui e aqui estão dois exemplos) e conta-se a história de que o arco da ponte não fechou à primeira tentativa.

Como se percebe pelas imagens de arquivo, a construção do arco começou simultaneamente em ambas as margens, sendo fechado com uma peça central. Reza a lenda que os dois segmentos não coincidiam na primeira tentativa, em 25 de setembro de 1877, tendo Gustave Eiffel ordenado que se esperasse algumas horas para repetir o processo - que foi então bem-sucedido. As altas temperaturas que se tinham feito sentir durante o dia haviam provocado a dilatação dos materiais e impedido a conclusão do arco no primeiro ensaio.

A ponte seria oficialmente inaugurada alguns dias mais tarde, a 4 de novembro (está guardado no Arquivo Municipal do Porto um convite/admissão para a inauguração), com o comboio real a transportar o rei D. Luís I, D. Maria Pia e os príncipes D. Carlos e D. Afonso.

A ocasião foi vastamente celebrada no Porto: "A cidade esteve três dias em festa; as janelas embandeiradas, as ruas com alcatifas de areia e flores, as lojas fechadas, como em dia santificado; as músicas em todas as praças, os sorrisos em todos os rostos. É que o Porto compreendia quanto essa inauguração apertava os laços que a ligam ao resto do país e ao estrangeiro; é que o Porto pensava, e pensava bem, que os adiantamentos na viação acelerada implicam a melhoria de viver da sua cidade", escreveu Mendonça e Costa, num relato da época.

A funambulista que estreou a ponte

Contudo, o aspeto mais insólito em relação à Ponte de D. Maria Pia é que ela foi atravessada a pé, ainda antes de ser inaugurada, por uma mulher destemida. Adelaide Lopes, esposa do engenheiro-chefe da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, Pedro Inácio Lopes, percorreu a pé, de Gaia até ao Porto, a ponte inacabada.

A história é contada em vários livros: Adelaide Lopes foi a primeira pessoa não relacionada com a construção a atravessar a ponte, e fê-lo a pé, sem qualquer proteção. "Ora, sensivelmente a partir do meio do tabuleiro, deixava de haver as passadeiras laterais sobre as quais se podia andar comodamente e em segurança. Haviam apenas umas compridas barras de ferro por onde só se aventuravam os mais exímios e corajosos operários. D. Adelaide Lopes nem aí teve o mais leve indício de temor que a levasse a voltar atrás", escreveu Germano Silva em "Porto Desconhecido e Insólito"
.

Uma mulher de coragem e que estreou a Ponte de D. Maria Pia ainda antes da inauguração oficial. A estrutura cumpriria mais de um século de serviço, até ao seu encerramento, em 24 de junho de 1991, tendo sido substituída pela Ponte de São João. Desde 1982 que a elegante ponte em ferro está classificado como monumento nacional.