Cultura

Cerimónia de homenagem a Maria de Sousa culmina com a atribuição do seu nome à biblioteca do i3S

A imunologista e professora emérita da Universidade Porto, Maria de Sousa, foi homenageada, ao final desta manhã, pelo Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S). A cerimónia, que pôde ser seguida online, culminou com a atribuição do nome da cientista à biblioteca do i3S e com uma visita a alguns expositores onde estão objetos pessoais do último gabinete de Maria de Sousa no i3S. O presidente da Câmara do Porto, que conheceu a investigadora, esteve entre os convidados da homenagem.

Depois de ter anunciado o nome de Maria de Sousa como uma das homenageadas da edição de 2020 da Feira do Livro do Porto, Rui Moreira seguiu para a cerimónia em que se celebrou a vida e obra da cientista e académica, que faleceu em abril, aos 81 anos, vítima do novo coronavírus.

Na verdade, considerada uma mulher de Ciência, Maria de Sousa deixou um legado que vai muito além das descobertas científicas. Foi também uma brilhante poeta e, nos últimos dias de vida, escreveu "Carta de amor numa pandemia vírica", um poema cuja versão original foi escrita em inglês, língua em que preferencialmente se expressava no papel. O epitáfio, como referiu a Quetzal Editores, "não é pequeno".

Tal como não foi a vida de Maria de Sousa, que de tão grande ficará sempre marcada pelo contributo inquestionável ao desenvolvimento do sistema científico nacional e à criação da nova geração de cientistas portugueses. "Muitos dos que estão hoje na linha da frente da investigação do vírus que assola o mundo foram seus estudantes, ou seus discípulos", escreve o Notícias da U.Porto a este propósito.

A sessão de homenagem (disponível na página de Facebook do i3S) contou com intervenções de Claudio Sunkel, diretor do i3S, Pedro Rodrigues, vice-reitor da U.Porto, e Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior. Pela tribuna passaram ainda Manuel Sobrinho Simões, diretor do Ipatimup, Alexandre Quintanilha, deputado na Assembleia da República, e Graça Porto, investigadora e colaboradora de longa data da homenageada.

A biblioteca do i3S, que passa agora a ter gravado o nome de Maria de Sousa, também perpetua a sua presença no Instituto através da exibição de um conjunto de objetos pessoais recolhidos do último gabinete onde a professora trabalhou. Os expositores ficam doravante disponíveis para a visita do público em geral.

Com um currículo académico e de investigação internacional invejáveis, Maria de Sousa foi uma das primeiras mulheres portuguesas a serem reconhecidas internacionalmente pelas suas descobertas científicas e notabilizou-se ainda na investigação associada à estrutura funcional dos órgãos que constituem o sistema imunitário.

"Carta de amor numa pandemia vírica

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia

Tenores cantam das varandas em Itália

Os mortos não os ouvirão

E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio

Quem pretendem animar?

As crianças?

Mas as crianças também estão a morrer

Na minha circunstância

Posso morrer

Perguntando-me se vos irei ver de novo

Mas antes de morrer

Quero que saibam

O quanto gosto de vós

O quanto me preocupo convosco

O quanto recordo os momentos partilhados e

queridos

Momentos então

Eternidades agora

Poesia

Riso

O sol-pôr

no mar

A pena que a gaivota levou à nossa mesa

Pequeno-almoço

Botões de punho de oiro

A magnólia

O hospital

Meias pijamas e outras coisas acauteladas

Tudo momentos então

Eternidades agora

Porque posso morrer e vós tereis de viver

Na vossa vida a esperança da minha duração

Maria de Sousa

3 de abril de 2020"