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Vivian Caccuri: "A música no meu trabalho é uma força que pode apontar para essa utopia de liberdade"
09-11-2019

Artista plástica de formação e Mestre em Música pela Universidade de Princeton, nos EUA, Vivian Caccuri veio ao Porto apresentar no Fórum do Futuro, que hoje termina, o seu trabalho "Febre-amarela", sobre o lugar da imunidade como caminho para a esperança no futuro. A artista acedeu a mostrar um pouco do seu processo criativo nesta entrevista ao "Porto.".


Vivian começa por explicar que "tudo tem a ver com a forma como me tornei artista, porque eu venho de uma família de músicos, e a minha natureza criativa sempre foi muito nesses dois mundos, sempre tive um instinto musical, o querer tocar instrumentos, assumir a música e participar em eventos e em momentos coletivos onde a música é importante. Mais tarde, senti necessidade de uma criação mais recolhida, mais subjetiva, concentrada na visualidade, como por exemplo o desenho, que é uma atividade mais solitária".

Este projeto que a artista trouxe ao Fórum do Futuro é descrito como uma palestra-performance que inclui uma exposição individual concretizada em objetos: telas de mosquito desfiadas, bordadas com desenhos vários da própria artista, nas quais Vivian coloca "uma visão do Brasil, de futuro, onde já existe uma convivência totalmente quotidiana com os mosquitos, onde não existe mais uma separação desses espaços, e as pessoas têm de vestir roupas especiais para poder conviver com os mosquitos. E eu desenvolvi algumas dessas roupas com esses materiais. Então, tem essas roupas expostas dentro dessa exposição".

Sobre se a música e a criação artística podem mudar/moldar o mundo, os comportamentos ou ajudar a perceber identidades, Vivian aponta que pensou a circunstância da sua exposição "febre-amarela", questionando-se: "E quando tudo isso passar?".

Numa perspetiva do papel do artista na sociedade, Vivian Caccuri partiu do lugar da imunidade dessa doença e da característica que lhe é particular e muito interessante: "quem nasce num contexto de febre-amarela e tem febre-amarela em criança fica imune para a vida, passa pela doença e fica mais forte. E eu fiquei imaginando o seguinte: então, um dia, se os brasileiros recuperarem dessa época de epidemia, de doenças e de grande negatividade, e depois disso ficarem mais fortes, isso é um jeito de entender que às vezes os desafios constroem saberes, tecnologias, e também sabedorias emocionais, para atravessar grandes desafios políticos e sociais. É um jeito de ver positividade num momento que é muito difícil, e é muito visível a diferença da leveza das pessoas, que elas tinham antes e que não têm mais agora".

Então, "o que eu não posso fazer como artista é simplesmente mostrar o que está errado, porque isso as pessoas sabem, elas sentem no dia-a-dia. Não posso simplesmente deprimir as pessoas; eu tenho de mostrar algo que coloque elas com mais coragem e esperança na vida. É aí um pouco o trabalho do artista: Se precisa de coragem para criar uma produção artística, então essa coragem precisa de ser transmitida também na mensagem do trabalho. Foi dentro da minha pesquisa que eu tentei achar a ótica no lugar da imunidade com a febre-amarela. Usando a epidemia para criar as tecnologias do calor, e não usar a arte para gerar mais consternação ou revolta; o artista não precisa de ter esse papel mais".

Vivian expôs um primeiro trabalho em que combina as suas vertentes de som e visualidade no projeto "Oratory", apresentado na Bienal de S. Paulo, em 2016, e foi o primeiro no qual a artista combinou altifalantes e velas. Nesse trabalho, colaborou com produtores musicais do Gana.

A partir dele trabalho, Vivian projetou outro trabalho usando essa ideia de velas e som grave para falar de música religiosa, de música católica, tendo pesquisado sobre a primeira partitura em papel, no mundo ocidental. E "achou" os Cantos Ambrosianos, que são os Cantos anteriores aos Cantos gregorianos, "nos quais não existe uma poli harmonia, não existe contraponto. É uma harmonia muito simples. Nessa época, a música era usada como uma ferramenta de disseminação da mensagem da igreja neocena para angariar mais fiéis", explica a artista.

"O meu interesse foi ver como é que a música foi utilizada como uma ferramenta social e política, para manipular os ânimos e a fé e também legitimar uma grande pressão. Então, tal como nos tempos contemporâneos, a música tem esse poder de vulnerabilizar a pessoa para receber uma mensagem. A música no meu trabalho é uma força que pode apontar para essa utopia de liberdade".

Em relação ao que a move para criar, Vivian é muito clara: "Teve um momento onde isso era uma contradição para mim; eu pensava que tinha de ser uma coisa ou outra. Mas, assim que comecei a estudar na universidade, resolvi abraçar as duas coisas e ser as duas coisas ao mesmo tempo. Foi uma forma de juntar duas características em mim e ver o que é que dá".

O trabalho da artista mulifacetada junta elementos que aparentemente estão separados. Tal como explica Vivian, "o que é que tem a ver a febre-amarela com a música católica e com o Bolsonaro? Então faço uma trança que liga essas coisas. Quem assiste também pode começar a aguçar esse tipo de perceção, e talvez perceber que nem tudo é o que parece, nem tudo é tão simples e imediato, e as coisas têm explicação para serem daquele jeito".