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Rui Moreira avisa TAP que o Porto não dará tréguas em artigo de opinião no JN
03-05-2020

O Presidente da Câmara do Porto assina hoje uma crónica de opinião no Jornal de Notícias, onde avisa que a cidade não vai aceitar que, mais uma vez, a TAP com dinheiros públicos se transforme cada vez mais uma empresa regional. Na crónica intitulada "Sem tréguas", Rui Moreira lembra que a retoma da principal região industrial do país não pode fazer-se sem transporte aéreo e que um arranque a duas velocidades irá inquinar todo o país, definitivamente.


"Não é preciso explicar que precisamos, na reabertura da economia, de transporte aéreo regular a partir do Aeroporto Francisco Sá Carneiro. A região tem uma taxa de cobertura da balança comercial de 140% e as empresas, que impulsionam as exportações do país, necessitam de ligações aéreas para garantir o negócio. Também o turismo irá voltar", começa por afirmar Rui Moreira, acrescentando que "o mercado resolverá o problema a prazo, mas na actual situação, o transporte aéreo necessita de estímulos para arrancar. É essa a razão pela qual os governos terão de conceder às companhias apoios que as salvem da bancarrota e as relancem na operação".

Sobre a "batalha" que travou com a TAP há quatro anos, Rui Moreira diz que a companhia não venceu. "Como tínhamos previsto, houve outras companhias que aproveitaram a ocasião e a procura crescente pela região Norte e ocuparam as rotas abandonadas. Depois, com a saída de Fernando Pinto, para quem a decisão de tudo concentrar em Lisboa tinha mais de obsessivo que de estratégico, e a chegada de Antonoaldo Neves, adepto da "realpolitik", a TAP foi retomando a operação no Porto".

Referindo-se a um artigo publicado no JN, segundo o qual a TAP irá arrancar com 71 rotas a partir de Lisboa e 3 no Porto, o Presidente da Câmara lembra: "fosse a TAP privada e não necessitasse de ajudas de Estado, seria legítimo que assumisse livremente essa estratégia. Contudo, é uma empresa participada a 50% pelo Estado português e reclama agora um gigantesco apoio estatal".

Rui Moreira diz, por isso, entender a posição que o ministro Pedro Nuno Santos, "porque desnudou os erros que foram cometidos na privatização da TAP e na posterior reversão por parte do Governo do PS" e explica: "Compreendo aquilo que diz quando fala de Estado soberano e quando não aceita "bancar sem mandar". Porque ele diz exatamente o que escrevi em 2016".

"Enquanto presidente de Câmara do Porto, sinto-me no direito de exigir que a retoma da operação da transportadora abranja o nosso aeroporto numa proporção idêntica à que existia antes da crise. De outra forma, se isso não for exequível em tempo útil, recuso-me a aceitar que dinheiros públicos ou o aval soberano, que são bens de todos os contribuintes, sejam mobilizados apenas para salvar uma empresa de gestão privada, e que tem - porque quer ter - um âmbito meramente regional", refere.

Rui Moreira lembra ainda que "se em condições normais de mercado é complicado ao Norte olhar para a sistemática assimetria de investimento público, que a região vai suprindo fazendo das tripas coração e através da iniciativa privada, numa situação de congelamento da economia, em que o número de voos chegou a quase zero e é transversal a todas as companhias aéreas, um arranque desequilibrado aprofundará ainda mais essas assimetrias e inquinará, em definitivo, todo país em direção ao abismo económico, financeiro e social. Porque a isso estará destinado um país a duas ou mais velocidades", acrescentando que "não estamos em condições normais de mercado. E se o dinheiro público que o Estado destina à TAP não servir para equilibrar oportunidades e defender a sua região mais produtiva, então servirá apenas para cumprir um capricho, que sairá caro a todos os portugueses".

O artigo publicado hoje na edição em papel do JN concluiu ainda que "a ser assim, insistindo a TAP nesta estratégia desequilibrada, então os apoios do estado deverão ser dirigidos para as transportadoras que estejam interessadas em retomar, prontamente a operação, distribuída pelos aeroportos nacionais e não só Lisboa. Não tenho dúvidas que, com menos dinheiro e mais empenho, a Ryanair ou a Easyjet, que têm bases no Porto e também empregam trabalhadores portugueses, estarão disponíveis para retomar o serviço".

A peça termina ainda com uma citação do livro "TAP - Caixa Negra", escrito em 2016:

"Quanto aos interesses do Porto - e esses eu conheço bem - era bem melhor que a TAP fosse totalmente privada ou totalmente pública e que a situação fosse clara. Se a TAP for privada, podemos lidar com ela como com qualquer outra companhia. Mas, se for pública, o Porto não pode nunca, mas nunca cansar-se de falar e até, se preciso for, de falar à Porto.