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Destaques

Porto tem projeto pioneiro ao nível do diagnóstico e tratamento da hepatite C
08-08-2019

O ACES - Agrupamento de Centros de Saúde do Porto Oriental disponibiliza o rastreio, diagnóstico, acompanhamento e tratamento de doentes com hepatite C, um projeto pioneiro a nível nacional, realizado em estreita parceria com o Hospital de São João. O "Porto." esteve à conversa com a equipa multidisciplinar que tem a ambição de eliminar esta doença na cidade nos próximos cinco anos e ousou avançar, sem apoios financeiros, para um programa centrado no bem-estar dos utentes.


O Porto é a primeira cidade do país onde um agrupamento de prestação de cuidados de saúde primários promove o diagnóstico e o tratamento de doentes com o vírus da hepatite C. Por outras palavras, salvo a exceção do ACES Porto Oriental, não há mais centros de saúde a nível nacional a disponibilizar este serviço, que permanece concentrado nas unidades hospitalares.


Desde que o projeto arrancou no início de 2019, nomeadamente na Unidade de Saúde de Azevedo de Campanhã, na Unidade de Saúde Familiar de Faria Guimarães e na Unidade de Saúde Familiar do Lindo Vale, já foram promovidos mais de 5.600 testes de diagnóstico. Muito simples e rápido, o teste consiste numa pequena picada no dedo (semelhante ao método de controlo da diabetes), em que é recolhida uma pequena amostra de sangue para um dispositivo descartável que, no prazo de 15 minutos, indica se a pessoa tem ou não hepatite C.


Num universo já superior a 5.000 pessoas, cerca de 50 foram diagnosticadas com o vírus. Seguem-se todas as análises laboratoriais, também realizadas no ACES Oriental, para se aferir a necessidade de tratamento, que decorre num período de 8 a 12 semanas, tempo que leva à cura.




"Quando alguém faz o teste e dá negativo, dizemos: fantástico, parabéns, não tem hepatite C! Se diagnosticamos a infeção, dizemos na mesma: fantástico, parabéns, vai ser curado(a)!", assinala o diretor do serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João, Guilherme Macedo, mentor e grande entusiasta do projeto, apresentado no final de 2017 a uma vasta comunidade de médicos e profissionais de saúde na Ordem dos Médicos do Porto, com base nos resultados obtidos no estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, onde foi atingido o objetivo de eliminar a doença.  


A esta apresentação assistia a diretora executiva do ACES Porto Oriental, Dulce Pinto, a quem logo despertou o interesse de levar para dentro "das suas portas" aquele que considerou ser um modelo de referência na "articulação" e sobretudo na "integração" entre diferentes níveis de prestação de cuidados de saúde.


Partilhou a ideia com suas equipas e, após algumas hesitações iniciais prontamente dissipadas, "arregaçaram mangas" com entusiasmo e planearam a operacionalização do projeto de A a Z. Sem qualquer apoio externo e executado somente com a mobilização dos recursos humanos internos, designadamente do ACES Porto Oriental e da equipa do também professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.


Se, por um lado, esta autêntica "descentralização" de serviços motiva e desafia as equipas que prestam cuidados de saúde primários a "sair da sua zona de conforto", por outro lado faz prova de que, "ativando o diagnóstico precoce", a eliminação da hepatite C deixa de ser desiderato intangível para se tornar horizonte a prazo de "quatro a cinco anos", caso este exemplo seja replicado noutras partes do território.


"O perfil epidemiológico das populações está a mudar. Nós, que prestamos cuidados de saúde primários, estamos conscientes de que temos de ensaiar modelos de abordagem de base comunitária", assinala ao "Porto." a diretora executiva do ACES Oriental.


Os benefícios para os doentes são tangíveis, desde logo porque a proximidade permite reduzir substancialmente os tempos de espera. Se confirmado o diagnóstico positivo, após análise laboratorial realizada no ACES, "é imediatamente marcada uma consulta de especialidade de Gastroenterologia também no centro de saúde e, por fim, disponibilizado o tratamento pela equipa de saúde familiar". A cura chega, enfatiza, em dois/três meses, no máximo.


Sentados à mesa, os nove protagonistas desta task-force, médicos e enfermeiros e ainda uma técnica administrativa, corroboram a síntese de Guilherme Macedo. "Uma situação potencialmente muito grave consegue resolver-se com uma cadeia de acontecimentos muito curta", observa o especialista.


Agremiar novos entusiastas e "contagiar positivamente" outras unidades para um projeto com provas dadas, mas que, por força das vicissitudes só chega por enquanto a cerca de 80.000 utentes, já não depende só desta equipa, mas a confiança que transmitem e a formação que estão disponíveis a facultar não tem preço.


Até 2030, Portugal assumiu o compromisso com a Organização Mundial de Saúde (OMS) de diminuir incidência do vírus de hepatite C em 90% e a mortalidade associada em 65%. No Porto, faz-se história e "faz-se figas" para que este exemplo se multiplique por muitos pontos do país.