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O "Porto." entrevistou Neill Lochery sobre o seu livro mais recente, "Porto: Porta de Entrada para o Mundo"
03-07-2020

O "Porto." entrevistou Neill Lochery sobre o seu livro mais recente, "Porto: Porta de Entrada para o Mundo". Esta entrevista foi realizada na Casa do Roseiral, residência oficial do Presidente da Câmara do Porto. Rui Moreira deu as boas-vindas ao professor Neill Lochery e à sua esposa/agente Emma Lochery antes da entrevista.


Neill Lochery concordou em falar sobre o que inspirou na escrita do livro "Porto: Porta de Entrada para o Mundo", as suas pesquisas e descobertas sobre o Porto do ponto de vista de um historiador, em especial a importância do Porto no âmbito do Império Português até à atual estrutura de poder em Portugal.

Neill Lochery (nascido em 1965) é um proeminente autor e historiador escocês, especialista em História Moderna da Europa, do Mediterrâneo e do Médio Oriente. Lochery é professor de Estudos do Médio Oriente e do Mediterrâneo na University College London. É colaborador regular de jornais e publicações em todo o mundo.

Neill é casado e tem dois filhos. O autor divide o seu tempo entre Londres, Portugal e os Estados Unidos. Entusiasta de golfe, sempre que pode, não perde uma oportunidade para praticar este grande jogo escocês.

Lochery é autor de mais de uma dúzia de livros aclamados pela crítica. O seu livro mais recente, que acaba de ser publicado, intitula-se "Porto: Portal para o Mundo".

"O Porto é uma grande cidade, rica em História, é um local belíssimo no presente e, no futuro, tem o potencial para se tornar ainda mais importante."
Neill Lochery

Porto.: Professor Lochery, viaja pelo mundo inteiro para participar em palestras...
Lochery: Correto; bem, de momento não (!) mas normalmente viajo muito para proferir palestras, não apenas a académicos mas também ao público em geral.

Porto.: Um dos âmbitos do seu tópico de pesquisa é o Entendimento Cultural. Isso ajuda a contextualizar a sua escrita?
Lochery: Penso que sim. Não penso que o Entendimento Cultural seja, per se, tudo, mas é um aspeto importante da história; quer dizer, existem diferentes aspetos da história que podemos observar, por exemplo, no Porto, podemos olhar para a história cultural, podemos olhar para a história económica, para a história política; estão interligados, um não existe sem o outro. Mas do ponto de vista cultural, estou muito interessado no Porto por causa do seu caráter distintivo em relação a Lisboa, e em como é muito singular, creio eu.

Porto.: Casado, dois filhos, uma esposa/agente encantadora, um aficionado do golfe?
Lochery: Sou um péssimo golfista, verdade seja dita; pratico golfe desde criança; na Escócia, quando se é criança, tem de se praticar golfe.

Porto.: O golfe foi inventado na Escócia, certo?
Lochery: Sim, foi inventado na Escócia. Alguns dos mais belos campos de golfe situam-se na Escócia. Praticar golfe em Portugal é muito caro; na Escócia a maioria dos campos é propriedade do estado, por isso é acessível praticar golfe, não é preciso ser rico para jogar. Mas sou um péssimo jogador de golfe, ainda estou a tentar aprender. É bom sentirmo-nos humildes por algo que, por mais que tentemos, não somos muito bons nisso. O meu filho é muito bom, o que torna tudo ainda pior. Jogamos a Lochery Cup todos os anos, eu e o meu filho. E ele ganha.

Porto. : Pode descrever, resumidamente e respondendo o que lhe vem quase de imediato à cabeça, os seus antecedentes familiares e também como se vê, do ponto de vista intelectual?
Lochery: Os meus antecedentes familiares são tradicionalmente escoceses, que de certa forma se assemelham a certos locais de Portugal; venho de uma pequena cidade da Escócia, Dumfries, famosa por ser a terra natal de Rabbie Burns, um famoso poeta escocês e também, mais recentemente, um DJ irritante que os meus filhos ouvem, chamado Calvin Harris. Por que é semelhante ao Porto? Eu diria pela importância do rio e do mar. Vim para Portugal nos anos 80 e trabalhei no British Council, em Coimbra, realizando atividades culturais. Era um lugar muito interessante em 1986, apenas doze anos após a Revolução (Revolução dos Cravos). Estar em Portugal naquela época era muito interessante, mas não havia auto-estrada para o Porto, a auto-estrada acabava em Condeixa.

Vinha muitas vezes ao Porto, por um motivo muito diferente: adoro jazz, toco trompete; vinha para a escola de jazz no Porto. Vinha todas as quintas-feiras à noite e ficava no Porto até sexta, depois das aulas; não havia nada em Coimbra relacionado com o jazz, por isso vinha ao Porto. Pude ver culturalmente o Porto nos anos 80, o que era muito interessante, era muito diferente de Lisboa, muito diferente de Coimbra.

Porto.: Foi o seu primeiro contacto com o Porto, então?
Lochery: Sim, todos vestiam de preto no Porto, e em Lisboa toda a gente usava jeans Benetton e camisas cor de laranja garridas; mas o Porto era muito diferente, havia uma cena cultural diferente aqui, bastante centrada no jazz, que eu realmente apreciei, mas até a música pop que saía do Porto, na época, era muito diferente. O jazz é uma parte muito importante da minha vida.

Porto. : Voltando à questão anterior, do ponto de vista intelectual, como se descreveria, então?
Lochery: Essa é uma pergunta muito boa (risos). Intelectualmente, quero aprender sempre mais. Estou focado em aprender o máximo que puder sobre Portugal e os diferentes períodos da História de Portugal. Portugal é um país muito pequeno, mas a sua história é extremamente rica e tem fases interessantes muito distintas, e por isso estou muito interessado em aprender cada vez mais sobre a cultura portuguesa. Este livro (Porto: Porta de Entrada para o Mundo) foi encomendado pela The Fladgate Partnership, que faz o World of Wine em Gaia. Estou interessado em diferentes períodos da história.

Porto.: Assim sendo, falando de diferentes períodos da história, qual é a sua perspetiva, como historiador, sobre o período da história que estamos a viver, nomeadamente, a pandemia e de que forma vê o mundo no período pós-pandemia?
Lochery: Penso que a pandemia atual terá, obviamente, um enorme impacto não só nos indivíduos, mas também na sociedade; terá um enorme impacto em locais como o Porto em termos de Turismo, e também em termos de questões financeiras, em termos de como isso vai mudar as coisas.

Penso que, em grande medida, isso irá depender de termos uma segunda onda, uma terceira onda; quando olhamos para a história, a coisa mais próxima que podemos associar é a gripe espanhola, em 1917-1918, e que é muito significativo; até certo ponto, ajudou a determinar o resultado da Primeira Guerra Mundial, mas acho que é muito cedo para tirar lições ou dizer como poderão as coisas evoluir.

A minha opinião pessoal é que podem ocorrer dois caminhos diferentes; poderá incentivar os chamados conflitos intratáveis a entrar em negociações, por exemplo, Israel e os palestinos; talvez possa indicar a interdependência da coexistência desses dois povos, que enfrentam uma ameaça semelhante, ou até pode ser que conduza às negociações noutras áreas de conflito, ou pode seguir a direção oposta, e o que poderá acontecer é essencialmente um declínio nos recursos económicos, o que levará a uma maior competição económica e, portanto, a mais conflitos; conflitos pelos recursos económicos e isso pode levar a um aumento nas guerras na Europa e no mundo também.

Portanto, dessa perspetiva, é muito difícil antever, ainda é cedo e acho que, como eu disse, muito depende historicamente de quão longo período de tempo a Covid-19 durar. Se continuar até outubro ou mesmo até o próximo ano, acho que veremos mudanças substanciais, de um ponto de vista histórico. Mas, como se diz em inglês, é como tentar adivinhar com uma bola de cristal, olhando para o futuro e colocando as coisas numa perspetiva histórica, é muito difícil se não se souber o resultado final. Tudo pode mudar muito rapidamente. 

Quando aconteceu antes, em 1918, não existia esse nível de interconectividade entre os países. Não se podia apanhar um avião no aeroporto de Stansted e voar para o Porto em duas horas, não havia movimento de pessoas, não apenas no turismo, mas também em trabalho.

Porto.: Que tipo de fontes utilizou para escrever o livro?
Lochery: Arquivos. Fui aos arquivos na América, em Espanha, na Inglaterra, em Portugal, e ironicamente o arquivo do Porto está localizado em Lisboa, na Torre do Tombo. O que é curioso é que, quando eu estava a pesquisar sobre o Porto, nos Arquivos Nacionais Britânicos, fiquei indisposto porque os documentos estavam cobertos com muito pó, pois ninguém lhes tinha tocado durante muito tempo; alguns dos documentos dos séculos VII e XVIII, foi quase a primeira vez que alguém lhes tocou. Não acho que muitas pessoas tenham realmente olhado para o Porto; por sua vez, muitas pessoas olharam para Lisboa por diferentes razões, relacionadas com reis e rainhas, por ser a capital. 

Acho sempre muito curioso que as pessoas, quando falam do Império Português, se focam sempre em Lisboa, até pelas muitas pesquisas que já foram feitas por estrangeiros antes, o que é muito bom. Mas o Porto também é muito importante para o império. Uma descoberta muito interessante com que me deparei, quando estava a pesquisar para o meu livro anterior sobre Lisboa, foi sobre o período liberal, extremamente interessante.

Quando pesquisava em Lisboa, cada vez mais ia descobrindo que os desenvolvimentos políticos ocorridos em Portugal tinham origem no Porto e essa era uma questão muito interessante. Por quê? Por que é que isso aconteceu, esse tipo de evolução da política, essa divisão entre absolutistas e liberais, o cerco aqui no Porto, a Constituição a ser declarada em 1820, as muitas divisões, entre as fações políticas, e depois é muito interessante perceber como e porquê essas divisões aconteceram, e algumas aconteceram por causa da ideologia e outras por causa da competição pelo poder.

Porto.: Pensa que o Porto funciona melhor de forma coletiva enquanto cidade do que o país como um todo?
Lochery: É uma pergunta interessante e nós, historiadores, chamamos-lhe a Pergunta de Barcelona, porque as pessoas na Catalunha perguntam-nos o mesmo. Porquê que somos tão mais bem-sucedidos em termos económicos do que o resto da Espanha, (possivelmente com exceção dos bascos)?

A questão é basicamente porque a maioria da riqueza económica está concentrada no Porto, na região Norte, e há uma resposta curta e uma resposta longa.

A resposta curta é que as pessoas no Porto e no Norte trabalham muito, o ethos do trabalho é muito importante aqui. Brinquei na entrevista que dei na semana passada (Notícias Magazine) de que a hora de ponta começa mais cedo, pois uma das primeiras coisas que notei ao chegar ao Porto foi que a hora de ponta em Lisboa começa às 9h50; aqui no Porto, quando cheguei, fiquei "uau", a hora de ponta é muito mais cedo aqui. E as pessoas demoram menos tempo a almoçar aqui também; esta é a resposta curta: trabalho e ética muito forte.

A resposta longa é que o Porto se desenvolveu industrialmente de maneira muito diferente de Lisboa. O desenvolvimento da infraestrutura no Porto foi muito diferente, falo da criação de linhas ferroviárias, estradas, etc., aconteceu em diferentes pontos de Lisboa e, de muitas maneiras, mas Lisboa tornou-se mais dependente do Império - os presentes, o ouro e tudo mais do império - e sendo a Sede da Monarquia, a Sede do Governo, criou um tipo muito diferente de ambiente. O Porto desenvolveu-se de maneira muito diferente no século XIX, de uma maneira muito diferente de Lisboa, e mesmo quando olhamos para questões mais contemporâneas, como a última crise económica - 2010/2011 - a resposta no Porto e em Lisboa foi muito diferente.

Porto.: Já explicou porque intitulou o livro "Porto: Entrada para O Mundo" (utilizando uma expressão de Kofi Annan, aquando da sua visita ao Porto em 1994), mas o título foi a sua primeira escolha ou era um título provisório?
Lochery: Normalmente, a resposta para essa pergunta é que eu tenho um título com o qual começo a trabalhar e que nunca é publicado; mas, neste caso, era o título, desde o início, achei uma frase muito feliz que expressava a conexão do Porto com o mundo exterior, o seu papel enquanto cidade mercante e como está ligada historicamente, mesmo antes do turismo, nos últimos dez anos, ao mundo exterior. Acho que este é o meu livro número doze e é a primeira vez que o título provisório é o título final.

Porto.: De que forma vê o poder local desenvolver-se em relação ao poder central? Antes da pandemia, a tendência era as cidades, os governos locais começarem a ganhar mais autonomia um pouco por toda a Europa?
Lochery: Fez-me essa pergunta no início da entrevista, sobre o impacto histórico da pandemia, e um dos impactos históricos pode ser esse, ou seja, a tendência estava a ser caminhar nessa direção, em direção à evolução de mais autonomia para as regiões, os autarcas a assumirem cada vez mais poder. Um dos impactos da pandemia pode ser a reversão disso e o fortalecimento do poder central. O governo central poderá dizer que esta é uma emergência nacional e então poderemos ter uma pequena elite no controlo.

Porto.: Mencionou a importância do Aeroporto do Porto, Francisco Sá Carneiro. Como enquadra essa questão do Porto ter ou não um aeroporto internacional?
Lochery: O Aeroporto do Porto não deve tornar-se apenas um aeroporto para turistas vindos da Europa, deve tornar-se um aeroporto internacional, deve operar voos, como acontecia antes da pandemia, para os Emirados, que é o centro da Ásia, e precisa de mais voos para essa região, necessita ainda de voos adicionais para o Brasil, pois um ou dois voos por dia não são suficientes e isso é um trabalho para uma companhia aérea nacional, como a TAP; precisa de muito mais voos para Nova Iorque; é importante que, quando o aeroporto estiver a funcionar com mais capacidade, as pessoas possam chegar diretamente aqui (ao Porto).

Porto.: Porque é que organizou o livro da seguinte forma: "Primeira Parte - Manhã, Tarde"?
Lochery: Quis fazer como se fosse um passeio, sugerir às pessoas o que poderiam fazer, além de ler o livro, ir descobrir a cidade. Tentei dizer: "Olhe, aproveite a manhã e olhe para isto ou aproveite a tarde e vá e faça isso", porque eu fiz essa digressão pela cidade, sei o que é viável. Pode ler-se o livro sem fazer o passeio, mas achei que seria agradável.