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Destaques

"Miguel Veiga era o Porto que nós queremos. O Porto cosmopolita da felicidade, da honra e dos princípios"
06-01-2017

Artur Santos Silva, Rui Moreira e Manuel Cabral recordaram ontem, na Fundação Eng. António de Almeida três amigos: Luís Telles de Abreu, Miguel Veiga e Vasco Graça Moura, numa sessão organizada pela editora Modo de Ler e pela Cooperativa Árvore. Isabel Ponce de Leão e Cuca Sarmento completaram os testemunhos com três textos, sob o mote "porque a amizade é o mais belo lugar da terra". Sofia Lourenço, ao piano, completou com música um fim de tarde que encheu o auditório da fundação.


Entre os organizadores estiveram também Armando Alves, Isabel Ponce Leão, Luís Neiva Santos e Manuela Abreu e Lima. Ao presidente da Câmara do Porto, além da intervenção a propósito de Miguel Veiga, coube o encerramento da sessão, com uma citação de Pablo Neruda:


De repente não posso dizer-te
o que te queria dizer,
homem, perdoa-me, saberás
ainda que não escutes as minhas palavras
que não me pus a chorar nem a dormir
e que estou contigo sem te ver
desde há muito e até ao fim.


Sobre o amigo Miguel Veiga, emocionado, Rui Moreira lembrou que, por tantas vezes, já a ele se ter referido e o ter citado. "Tenho que referir, em primeiro lugar a amizade", afirmou, explicando "uma amizade antiga, afectuosa, inspiradora e partilhada". "Agora que o Miguel partiu não voltarei a encontra-lo no molhe, não voltarei a ouvir os seus conselhos, não voltarei a festejar vitórias a seu lado, não voltarei a chorar ao sair de sua casa. Conformei-me com a sua partida, mas, como escreveu Drummond de Andrade, a ausência assimilada ninguém a rouba de mim".


Rui Moreira acrescentou ainda: "Miguel Veiga não era do Porto. Era o Porto que nós queremos. O Porto cosmopolita, o Porto da fidelidade e da honra, o Porto da inteireza dos princípios". Elogiou ainda a sua "rara dimensão cultural", que "recusava o jacobinismo" e "coleccionava da mesma forma, amigos, pintura e livros".


E prosseguiu, dizendo tratar-se de um homem de causas e "desprezava profundamente a neutralidade". "A sua herança cívica merece ser estudada e exaltada, mais a mais num mundo em que rareiam os bons exemplos, em que a política se consome muitas vezes na insídia cobarde e maledicente, onde a cidadania oscila entre o apaziguamento abstencionista e a tolerância populista", acrescentou.


Miguel Veiga morreu a 14 de novembro de 2016 e Rui Moreira dedicou-lhe, então um extenso artigo no semanário Expresso.


Na ocasião foi ainda anunciado o vencedor do prémio de poesia Vasco Graça Moura, atribuído a Maria Júlia, pseudónimo de Nuno Figueiredo, pela obra "Dias Verticais".