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Destaques

Livro de José Milhazes conta a história de ascensão de uma família portuense na Rússia dos czares
10-09-2020
"Do Porto ao Gulag - A Viagem Secular de Uma Família Portuense no Império Russo-Soviético", do jornalista, escritor e comentador político José Milhazes foi apresentado, nesta quinta-feira, no auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no âmbito da Feira do Livro. O prefácio é assinado pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira.

A mais recente obra do jornalista português que melhor conhece a Rússia, país onde viveu durante 40 anos, na capital Moscovo, narra a história de vida de um mercador e diplomata portuense José Pedro Celestino Velho (1755-1802), que tornou o Vinho do Porto uma moda no Império Russo, na segunda metade do século XVIII. Mais do que isso, narra a influência do Porto na corte czarina e o florescer de uma ligação comercial com o Norte da Europa, que a Invicta soube aproveitar, cimentando o negócio do Vinho do Porto e de outros produtos no império russo.  

Na apresentação do livro, Rui Moreira ressalvou o profundo conhecimento de José Milhazes sobre a Rússia, recordando que "durante muito tempo nos transmitiu notícias do país" e que viveu "todo o período de grandes transformações da URSS".

O trabalho de investigação levado a cabo pelo também tradutor, natural da Póvoa de Varzim mas profundo apaixonado pelo Porto, foi destacado pelo autarca, que referiu que o livro dá a conhecer, "a partir de uma família, um quadro amplo de relações entre países e culturas através do ilustre José Pedro Celestino Velho e dos seus descendentes, ora notáveis ora desconhecidos, o cruzamento entre povos nas suas relações comerciais, militares, na religião, na política e nos nossos costumes".

Além disso, para Rui Moreira, a obra é prova documental de que "nos longínquos séculos XVII e XVIII se estabelecem relações diplomáticas entre os dois impérios por causa do Vinho do Porto" e que a experiência da navegação portuguesa pelos mares do Báltico "deixou marcas e influências que ainda hoje perduram".

Contudo, nada disto seria possível se José Milhazes não tivesse tido acesso à troca de correspondência entre a família Velho, reconstituindo, a partir desses registos e testemunhos, a sua história e influência na Rússia de Pedro I e de Catarina II. "Em Portugal, há pouca tradição de escrever sobre famílias. Porque deitam fora a correspondência. Guardem essas cartas. A herança que transportamos não é apenas material", apelou o presidente da Câmara do Porto.

José Milhazes atestou-o. "Quando comecei a juntar material, ainda não tinha a certeza do que iria encontrar. Acaba por ser uma espécie de lotaria: não encontramos o que estamos à procura e acabamos por encontrar coisas que não esperávamos".

Tanto a família de José Pedro Celestino Velho como outras despertam no autor uma profunda curiosidade. São portugueses, a maior parte oriundos Porto e do Minho, que há três, quatro séculos, arriscaram partir e prosperaram lá fora, como António de Vieira, "o homem que construiu São Petersburgo de raiz, era o Rui Moreira lá do sítio", brincou. "Foi ele que criou a polícia russa, o sistema de canalização da cidade, as feiras, os mercados, todo o ambiente urbano", afirmou José Milhazes.

No caso da família Velho, o jornalista descobriu mais tarde, pelo que já não foi a tempo de publicar no livro, que o patricarca aproveitou a relação de amizade entre a cantora lírica portuguesa Luísa Todi e Catarina II para promover o Vinho do Porto nas cortes russas, embaladas por saraus musicados. "Foi, no fundo, pioneiro na promoção do vinho através de provas de degustação".

Nestas pesquisas, o autor descortinou ainda que, apesar do status granjeado, "viver na corte russa era uma autêntica tragédia. Jogar às carta com Catarina e as czarinas custava centenas de rublos" e há correspondência de portugueses que confirmam "estar na falência" por causa desse passatempo dispendioso. Nada que tivesse afetado José Pedro Celestino Velho, que se tornou "o banqueiro da corte russa", continuou o autor.

"Interessa-me a história destas famílias. Deixam um rasto muito forte. Outras há que desaparecem muito rápido. Por exemplo, do Gomes Freire de Andrade pouco sabemos", assinalou.

No processo de pesquisa José Milhazes lamentou, contudo, não ter recebido o apoio das caves de Vinho do Porto, nomeadamente da Real Companhia Velha, que não respondeu aos seus pedidos de acesso ao acervo histórico. Não obstante, o jornalista ainda acalenta a ideia de escrever um livro sobre a influência do Vinho do Porto na literatura mundial, e agradeceu o apoio de Rui Moreira e da Câmara do Porto para este livro em particular.

"A cidade está a mudar para melhor"

Apesar de grande parte da sua vida ter vivido na Rússia, José Milhazes sempre visitou o Porto com frequência. "A cidade está a mudar para melhor, incomparavelmente. Antes da pandemia, vinha cá uma série de vezes com amigos russos. Há sempre alguma coisa nova, um hotel, um restaurante... e os restaurantes nunca perdem a qualidade, o que em Lisboa já acontece", comentou. 

"Por isso, foi este amor pelo Porto e pela cidade que me levou a escrever este livro", concluiu.