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Imunologista Maria de Sousa, ilustre personalidade da Academia do Porto, morreu vítima da COVID-19
14-04-2020
Maria de Sousa, uma das mais ilustres personalidades da Academia do Porto, reconhecida investigadora em Portugal e no mundo, morreu na noite desta terça-feira nos cuidados intensivos do Hospital São José, em Lisboa, vítima do novo coronavírus, aos 81 anos. O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, vai propor atribuir o seu nome a uma artéria da cidade, pelo inestimável contributo prestado à ciência e pelo contributo à inclusão da cidade do Porto entre os circuitos internacionais de investigação mais prestigiados e conceituados do mundo.

A professora emérita da Universidade do Porto tem hoje o seu nome gravado em qualquer manual sobre o estudo do sistema imunitário, desde que descobriu como era organizada a migração dos linfócitos, células do sistema imunitário.

Nascida em 1939, em Lisboa, Maria de Sousa formou-se em Medicina em 1963, pela Faculdade de Medicina de Lisboa e começou a sua carreira dedicada à investigação científica, traçando o seu percurso sobretudo em Inglaterra, Escócia, Estados Unidos e Portugal. No nosso país, adoptou a Universidade do Porto e a cidade Invicta como sua casa.

A morte da cientista, escritora e professora, que integrava o júri do Prémio Pessoa, foi avançada esta terça-feira de manhã pelo Jornal Público, que refere que Maria de Sousa estava internada há uma semana.

Breve biografia

Entre 1964 e 1966, Maria de Sousa passou pelos Laboratórios de Biologia Experimental em Mill Hill, em Londres, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi aí, na capital britânica, que fez a grande descoberta que hoje a imortaliza.

Até 1964, pensava-se que todos os tipos de linfócitos - células do sistema imunitário fundamentais no combate a doenças e infeções - vinham do timo, uma glândula situada no peito, entre o externo e o coração. Pensava-se ainda que, depois do nosso nascimento, os linfócitos migravam do timo e iam proliferar e amadurecer nos órgãos linfáticos periféricos, como os gânglios linfáticos e o baço. "Maria de Sousa percebeu que não era bem assim", explica o Jornal Público.

Fez experiências em ratinhos, aos quais foi removido o timo logo a seguir ao nascimento. Verificou então que esses ratinhos sem timo continuavam, afinal, a ter linfócitos nos órgãos linfáticos periféricos. Mais: percebeu que nestes órgãos linfáticos periféricos dos ratinhos desprovidos de timo havia espaços deixados vazios - ou seja, espaços destinados precisamente aos linfócitos do timo. Portanto, nos órgãos linfáticos periféricos havia assim áreas para os linfócitos do timo (os linfócitos T) e áreas para outro tipo de linfócitos, que estavam ocupadas por eles. Por outras palavras, havia áreas nos órgãos linfáticos periféricos dependentes dos linfócitos que migravam do timo. Essa zona reservada aos linfócitos do timo é hoje conhecida por Área T.

Dourada em Imunologia pela Universidade de Glasgow (Escócia), partiu depois para os Estados Unidos, onde foi Professora Associada na Escola de Estudos Pos-Graduados de Cornell Medical College e, simultaneamente, Membro Associado e Diretora do Laboratório de Ecologia Celular no prestigiado Memorial Sloan Kettering Cancer Center do Sloan Kettering Institute (SKI), em Nova Iorque.

Autora de vários artigos científicos fundamentais para a definição da estrutura funcional dos orgãos que constituem o sistema imunológico, entre os quais o que consagrou a descoberta da área timo-dependente (1966), hoje conhecida universalmente por área T, Maria de Sousa notabilizou-se igualmente pelos estudos realizados em doentes com hemocromatose hereditária. Foi de resto esta linha de investigação que a trouxe para o ICBAS em 1985, ano em que funda o Mestrado de Imunologia.

Enquanto docente e investigadora da U.Porto, foi responsável pela constituição de uma equipa de investigação nova no campo da hemocromatose, repartida pelo ICBAS, pelo Hospital Geral de Santo António e pelo então novo Instituto de Biologia Celular e Molecular (IBMC). Ao nível do ensino pós-graduado, encabeçou em 1996 a criação do Programa Graduado em Biologia Básica e Aplicada (GABBA), um programa pioneiro em Portugal, resultado da colaboração entre o ICBAS, as faculdades de Ciências (FCUP) e de Medicina (FMUP), o IBMC, o Instituto de Engenharia Biomédica (INEB) e o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular (IPATIMUP) da U.Porto (estes três últimos, integrados atualmente no i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto).

Entre as distinções que somou ao longo da carreira incluem-se o prémio "Estímulo à Excelência", atribuído pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2004), o Prémio Universidade de Coimbra (2011) e o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2012). Em outubro de 2009, assinalou a sua jubilação com uma Última Aula no Salão Nobre da Reitoria da U.Porto, o mesmo local onde, um ano mais tarde, lhe seria confiado o título de Professora Emérita da Universidade.

Em 2016, foi condecorada pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem Militar de San'tiago de Espada, uma das mais importantes ordens honoríficas atribuídas pelo chefe de estado, o reconhecimento de um percurso científico da excelência, do qual se destaca a ligação de mais de 30 anos à Universidade do Porto.

Maria de Sousa juntou-se assim a grandes nomes da cultura portuguesa como o cineasta Manoel de Oliveira, o poeta Alexandre O'Neill, a fadista Amália Rodrigues, a poetisa Sofia de Mello Breyner Andresen ou a escritora Agustina Bessa Luís.