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Destaques

Especialista aponta perigos e soluções para problemas da mobilidade no Porto
11-05-2018
Especialista António Pérez Babo elenca principais problemas da mobilidade no Porto e define prioridades para os resolver, em debate da Semana do PDM. A solução principal, diz, está na mudança de mentalidades. Mas também define estratégias.  

"O Porto pode cair no congestionamento limpo" - este foi um dos alertas deixados por "um dos maiores especialistas nacionais em mobilidade", como se referiu o vereador do Urbanismo, Pedro Baganha, ao engenheiro e Professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, na abertura da sessão muito concorrida que ontem à noite se realizou na Junta de Freguesia de Paranhos.

António Babo contrariava assim a ideia de que as energias e tecnologias "verdes" sejam a solução global para os problemas da mobilidade, dominados pelo trânsito automóvel. "Poderíamos vir a ter só veículos de energia 'limpa', mas todos parados, pois até seria mais barato irmos a uma reunião e deixar o veículo a circular em vez de estacionar".

Este retrato caricaturado serviu para António Babo evidenciar o que constituiria "um desastre urbano completo" se se ignorassem outras medidas que, na sua ótica, devem ser assumidas com urgência. Todas elas - argumentou - passam pela mudança de mentalidades, tanto a nível da gestão autárquica como individual, ou seja, estão diretamente relacionadas com conceitos, mas também com atitudes.

Debilidades e respostas objetivas
Após a apresentação da Carta de Ocupação de Solos por técnicos da Divisão Municipal de Planeamento e Ordenamento do Território - que veio completar os estudos de caracterização e diagnóstico divulgados ao longo das várias sessões desta Semana do PDM - António Babo avançou para o que disse ser uma atitude anglo-saxónica (no sentido de pragmática e objetiva) com vista a atacar os problemas de mobilidade.

O Professor, que começou por explicar que "a gestão municipal e a realidade económica (pós-crise) aceleraram a evolução da cidade" nos últimos anos, considerou que o PDM em vigor não previu os efeitos da saída de crise. Por essa razão, aliás, viria a defender que o novo PDM tenha um caráter mais macro e seja complementado com documentos mais micro, mais ágeis e adaptáveis que permitam resolver os problemas em tempo útil.

Com os constrangimentos sobejamente conhecidos, o especialista em mobilidade e ordenamento (foi um dos coordenadores do atual PDM, em 2002, e corresponsável pelo Plano Estratégico de Mobilidade da Área Metropolitana do Porto) explicou com o tal pragmatismo ter escolhido quatro debilidades que a cidade apresenta neste domínio, e apresentou também prioridades para a sua resolução.

1 - Dando o exemplo de Barcelona, António Babo sugeriu que o Município estimule "cultura técnica camarária" para haver a ideal articulação entre os diferentes serviços. Nesse sentido, elegeu como "prioritária a reflexão interna" sobre o funcionamento do triângulo Decisão/Planeamento/Critérios.

2 - "Há uma elevadíssima utilização automóvel [uso individual] e o Porto tem défice de rede viária", elencou, comentando que "os municípios (todos) não gerem a mobilidade e limitam-se a gerir transportes". Daí que seja "prioritária a gestão do estacionamento", campo em que "o Porto está no bom caminho", elogiou António Babo, aludindo às concessões que a Câmara tem vindo a implementar neste setor.

Para o especialista, "o estacionamento de longa duração deve ser mais barato e o de curta duração deve ser mais caro; deve-se acabar com a venda de lugares de rua; e deve-se facilitar o estacionamento dos residentes, mas sem ser na rua e à porta de casa". Tudo isso - afirmou - contribuirá para dissuadir a utilização do veículo individual "por tudo e por nada".

3 - Transportes coletivos. Para António Babo, a STCP não configura um serviço urbano nem suburbano, sendo antes "um híbrido que anda a apagar fogos". Por isso, e com o alargamento da Área Metropolitana do Porto (AMP) a 17 municípios (que consolidará meio milhão de habitantes a servir), há que fazer a opção do tipo de serviço para esta empresa: "ou se expande para ainda mais suburbano e piora ou retrai e assume-se como urbana, deixando o resto para as concessões".

Contrapondo uma frota maior (serviço mais eficaz) a uma frota melhor (serviço mais confortável, adequado a viagens maiores), o Professor concluiu que a opção deve ser "aumentar a frequência dos veículos e, portanto, aumentar a frota; assegurar viagens mais curtas e mais rápidas". Mas admitiu a dúvida: "Conseguirá a AMP gerar consenso quanto a isto?".

4 - "Face à retoma do congestionamento automóvel com o pós-crise, "só há uma solução: baixar a taxa de utilização automóvel". António Babo regressou assim à questão da incontornável necessidade de mudança de mentalidades, quer a nível dos cidadãos quer a nível de gestão autárquica, aproveitando para mostrar também a urgência de alargamento dos passeios para facilitar o trânsito pedonal, bem como de aumento da arborização pois a existência de sombras no verão tornar-se-á mais e mais importante para os peões face às alterações climáticas. 

Feito o diagnóstico, António Babo reconheceu as dificuldades de implementação das medidas preconizadas, razão por que disse "nem sequer referir as ciclovias", tendo em conta constituem uma temática ainda geradora das mais diversas, apaixonadas e inconciliáveis opiniões.

Resumindo, o especialista aconselhou que o novo PDM seja mais "cirúrgico, curto e assertivo" do que o que está em vigor, no sentido da flexibilidade e adaptabilidade que já apontara como necessárias. Acrescentou ao sumário das prioridades a aposta na articulação interna da Câmara Municipal e a aproximação entre os setores público e privado na adoção de soluções, considerando que só se deve avançar para um Plano de Mobilidade e Transportes por volta do ano 2021, depois de implementado o novo PDM que - reiterou - deve identificar os principais problemas e definir um espaço de tempo para os resolver. E depois, então, atacar outro conjunto de problemas.


Esta foi a quarta sessão temática de debate público da Semana do PDM, que foram alvo de transmissão em direto nos canais da Câmara do Porto no facebook e no youtube, as quais estão integralmente disponíveis aqui.