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Campo Alegre conta histórias reais das vítimas do genocídio no Ruanda
31-01-2019
A artista britânico-ruandesa Dorothée Munyaneza apresenta em estreia nacional, no Teatro Campo Alegre, o espetáculo "Unwanted" que conta a história de mulheres violadas.

A violação é considerada ainda como uma arma de destruição em massa nas zonas de conflito; essas violações originam crianças traumatizadas pela história que carregam, um peso em torno do seu nascimento que as acompanhará para toda a vida.

Para escrever esta história, que terá apresentação única na noite desta sexta-feira, Dorothée Munyaneza foi ao encontro de mães rejeitadas, mulheres feridas pelas circunstâncias de uma vida que não planearam e a quem foi feita sempre a mesma pergunta, como início de conversa: "Depois do que lhe aconteceu, o que fez para se aceitar como é?".

"Unwanted" é, portanto, um relato a partir de histórias reais de mulheres que se viram violentadas na sua intimidade.

Depois de ter apresentado no Porto "Samedi Détente" em março de 2017, também em estreia nacional e com base no genocídio do Ruanda, Dorothée continua a sua jornada artística numa perspetiva muito pessoal: "Tenho um interesse especial no corpo feminino, especialmente quando maltratado, abusado, física e mentalmente, em tempos de guerra. Este trabalho sobre o corpo feminino só poderia ter origem no meu país, com as vítimas do genocídio", declara a cantora, atriz, dançarina e coreógrafa.

Os números não são precisos, mas cerca de 100 000 a 250 000 mulheres foram violadas durante o massacre de 100 dias que, no total, matou 800 000 pessoas no Ruanda, entre abril e julho de 1994.

"O que aconteceu há 25 anos àquelas mães e crianças assustou-me, inevitavelmente. Quero dar um passo para trás da minha história para agora transmitir a delas", explica Dorothée Munyaneza.

Sobre o processo de trabalho, as mulheres e crianças que conheceu e entrevistou, a criadora explica que, durante a sua pesquisa, encontrou várias vezes o nome Godeliève Mukasarasi, que em 1994 fundou a Sevota - uma instituição de caridade focada na ajuda a mulheres tutsis vítimas de violação sexual durante o genocídio. Conta que "Godeliève apresentou-me a mulheres que optaram não abortar e ter o filho. Muitos deles são seropositivos, pobres e socialmente excluídos. A maioria teve de fugir da sua aldeia para encontrar segurança e uma vida mais calma no campo, mas ainda estão a ser apontados, assim como os seus filhos".

Inicialmente, Dorothée temia que não falassem por modéstia, respeito ou medo. "Pensei que ia encontrar mulheres despedaçadas, mas longe disso: os seus testemunhos foram além da generosidade, beleza e dignidade. Tinha diante de mim uma mulher que sofrera, que ainda sofria, mas que estava em pé, a lutar pela luz".

A coreógrafa conheceu cerca de 60 mulheres e 70 crianças e entrevistou-as nas suas casas, umas vezes com Godeliève e outras vezes sozinha. Contou-lhes a sua história e fez uma pergunta: "Aceitas-te?". E foi aí que as histórias começaram: "Partilharam a sua história sem insistir na violação, apenas sugerindo que 'alguém se comportou mal comigo'. Perguntei então se poderia tirar uma foto delas com minha máquina descartável e elas saiam da sala e voltavam vestidas com os seus trajes mais bonitos e coloridos. Essas mulheres, por mais que sofressem, ainda valorizam seus corpos e a si mesmas".

Destinado a um público com idade superior a 12 anos, "Unwanted" é apresentado em récita única na sexta-feira, 1 de fevereiro, no Teatro Campo Alegre, às 21 horas. O espetáculo tem a duração aproximada de uma hora e 15 minutos e os bilhetes um custo de 10 euros.