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A história do "Manuel" que disse não à morte quase certa e adeus ao hospital
07-05-2020

Quando a Câmara do Porto iniciou o seu programa de rastreio aos lares, a 29 de março, o primeiro do país e único em Portugal que testou de forma sistemática toda a população institucionalizada, com ou sem sintomas, utentes ou trabalhadores, era o senhor "Manuel" - nome fictício - que tinha em vista. Ele e outros cinco mil "Manueis" e "Marias", que foram testados e que se encontraram na mais perigosa das curvas desta pandemia.


Os "kits" de testes rareavam então no país e dos 70 lares existentes no Porto, nem todos estavam registados ou eram do conhecimento das autoridades. Por isso, a Câmara, em conjunto com a Segurança Social e com as Autoridades de Saúde, procurou saber se não haveria outros, que fugissem ao crivo oficial. E vários foram descobertos. E testados, sendo essa também uma oportunidade de formação para evitar contágios, mas sobretudo de separação.

Ao mesmo tempo, a Câmara preparou retaguarda, caso fossem encontradas situações onde coabitassem infetados e não infetados.

"Manuel" vivia num desses lugares que escapam ao conhecimento oficial e do qual não havia registo ou conhecimento. Contudo, um alerta foi dado num hospital da cidade, onde morrera, entretanto, uma outra utente do mesmo espaço.

Foi a persistência da delegada de saúde e do agrupamento de centros de saúde e a vontade da Câmara do Porto em testar toda a gente, que acabou por provocar a visita que encontrou um espaço onde coabitavam vários idosos. Vários, mas menos do que era normal. Três tinham já sido hospitalizados e três acabaram por morrer, vítimas da Covid-19. Os restantes foram alvo da zaragatoa do rastreio municipal. A maioria estava infetada, assim como os funcionários.

Os que testaram negativo foram transportados pelos Bombeiros Sapadores para a Pousada da Juventude, onde a Câmara do Porto os mantém até hoje, protegidos, bem tratados e acompanhados. Os positivos, sem retaguarda familiar, foram recebidos no Hospital de Campanha, montado pelo Município, em resposta aos pedidos dos hospitais e com a orientação médica da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos.

"Manuel" estava entre os infetados a quem as muitas décadas de vida e diversas patologias davam pouca esperança se tivesse permanecido no local que uma jornalista apelidou em trabalho recente como "a casa da morte quase certa". A luz surgiu quando entrou no grande Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota, agora transformado em hospital.

"Manuel" estava então infetado com Covid-19. Agora, duas semanas depois, saiu curado.
Vai juntar-se aos seus companheiros e companheiras. Não nessa casa que o programa de rastreio lançado pela Câmara do Porto permitiu descobrir. Mas para a Pousada da Juventude.

"Manuel" reencontrou companheiros num quarto com vista para o Douro, com sol brilhante de manhã e gente que o trata com o carinho que merece e com dois testes negativos no bolso para mostrar aos netos, quando os vir, e mostrar que sobreviveu a tudo. Até à Covid-19.

Não reencontrou todos os seus companheiros - alguns ainda moram no grande pavilhão de espetáculos e congressos da cidade à espera da cura. Outros, já não reencontrará.

"Manuel" é o nosso herói do dia e simboliza a razão de ser do trabalho de tanta gente, na Câmara do Porto, nos agrupamentos de Centros de Saúde, nos Hospitais, mas também em empresas e instituições privadas dentro e fora do país, que ofereceram os cinco mil kits de testes - a Fundação Fosun e a Gestifute - que salvaram vidas.

O "Manuel" representa muitas histórias. Cinco mil histórias. E é a prova viva de que já valeu a pena.