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Destaques

A cidade do Porto tem a melhor água ao menor custo
20-08-2018

A empresa municipal Águas do Porto domina de A a Z o ciclo urbano da água, garantindo uma cobertura de rede de quase 100%. Na mais recente edição do Jornal Porto., Frederico Fernandes, presidente do Conselho de Administração, explica-nos em entrevista como se gere este bem tão essencial.


- As tarifas da água no Porto estão entre as mais baixas. Como é que se compatibiliza esta política de preços com uma boa situação financeira, endividamento zero e uma grande aposta no investimento?
- Temos fatores que jogam a nosso favor: a escala e as sinergias internas. A Águas do Porto serve mais de 155 mil clientes e de entre os 20 municípios mais populosos do país aplica a segunda tarifa mais baixa, e o mesmo sucede dentro da Área Metropolitana do Porto. Inversamente, em 2016 foi a empresa pública local mais rentável, de acordo com o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses (em breve saem os resultados de 2017). Claro que ser a empresa mais lucrativa levanta a questão das tarifas, que temos vindo a contra-argumentar com o valor que deve ser dado à água e com um conjunto de atividades que não produzem receita. O Porto é uma das poucas cidades a nível nacional e internacional responsável por toda a gestão do ciclo urbano da água. Significa que para além do abastecimento de água e do saneamento, que é o serviço normal de uma empresa desta natureza, temos ainda a gestão das águas pluviais, e a responsabilidade de assegurar a qualidade da água das praias e ribeiras da cidade.  
Tudo isto com a tarifa que alguns acusam de ser cara e que comprovadamente não é. Na generalidade dos lares até é a fatura com menor impacto no orçamento familiar. Acima de tudo, provamos que é possível conciliar uma tarifa baixa com bons resultados financeiros, graças à escala e à eficiência com que operamos e gerimos as nossas equipas. 


- Em 2017, o investimento cifrou-se em 10,2 milhões de euros, o maior do último quadriénio. Com que objetivos?
- Foi o segundo maior investimento desde que a empresa municipal foi criada, em 2006. Mas importa referir que o mais elevado resultou de um enorme apoio ao nível de fundos comunitários, sobretudo canalizado para novos contadores. Como tal, diria até que a Águas do Porto teve a sua maior carteira de investimentos com fundos próprios em 2017, sem qualquer endividamento bancário. A nossa prioridade é a reabilitação do património e de redes. 


- Este ano o nível de investimento mantém-se nestes valores?
- Vai rondar a mesma ordem de grandeza. Se a contratação pública deixar... 


- O que está a ser feito?
- Temos realizado inúmeras intervenções nas ruas do Porto, especialmente nas condutas de água, nos coletores de saneamento e nas redes pluviais. Através da reabilitação de reservatórios, conseguimos atacar fugas de água. Investimos ainda numa nova geração de contadores com telemetria: são mais caros, mas oferecem melhor qualidade na informação ao cliente. Aliás, existe uma grande aposta ao nível das tecnologias de informação (TIC). 


- Em que medida?
- Construímos de raiz a plataforma H2PORTO, uma tecnologia que permitirá em tempo real gerir remotamente e obter informação atualizada sobre todo o ciclo da água. Resultou de um concurso que lançámos e não existe nenhum outro software semelhante em Portugal. Através dela, conseguimos detetar ocorrências anómalas, operar remotamente as infraestruturas e antecipar um acontecimento de pluviosidade extrema, adaptando equipas e dimensionando redes. Por esse motivo, a plataforma terá uma relação próxima com o Centro de Gestão Integrada (CGI).
Por outro lado, oferece informação útil aos clientes, uma vez que, quando for necessário cortar a água em determinada rua, o sistema irá permitir identificar e avisar automaticamente os clientes afetados, lançando alarmes através da aplicação. Também graças à H2PORTO, os mupis próximos das praias vão facultar informação sobre a qualidade da água do mar. 


- Como se materializa o desígnio de "fazer da água fator de afirmação da cidade"?
- Com uma grande aposta nos nossos ativos. Reabilitámos os jardins e mata da Quinta de Nova Sintra, abrindo-os à cidade. Em conjunto com a Câmara, temos vindo a recuperar património e a devolvê-lo aos portuenses, como é o caso do reservatório da Pasteleira que está a ser transformado no Museu da História da Cidade. Temos ainda em curso o projeto de musealização do rio da Vila, um rio subterrâneo que corre entre a estação de São Bento e a Praça da Ribeira. As visitas serão sazonais, porque nos meses de maior caudal não é aconselhável o seu acesso. Os visitantes terão disponíveis equipamentos de realidade aumentada, que vão explicar, de forma didática, a influência que aquele caudal teve na história da cidade e as razões pelas quais foi enterrado em 1872. O concurso está concluído e a obra prestes a começar. 
Queremos também reabilitar o manancial da Arca d'Água, porque temos um rico património de galerias subterrâneas.  


- Outra das apostas tem sido a redução de perdas de água. Está hoje estabilizada?
- O Porto tem uma história muito forte ao nível da redução de perdas. Chegámos no último mandato com perdas na ordem dos 23,5% e fechámo-lo com valores entre os 18% e os 19%, entrando no limite daquilo que é definido pela Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos como excelente, que é abaixo dos 20%. Ainda há trabalho a fazer, porque temos dois tipos de perda: as perdas reais, que são as que nos fogem através das condutas e dos canais; e as perdas comerciais ou aparentes. Vamos continuar a fazê-lo através da sensorização e do conhecimento analítico das nossas redes, como meio de combate às fugas e ao uso abusivo. 


- É possível descer mais esta percentagem?
- À medida que a percentagem de perdas diminui mais difícil será a redução, mas sim, é possível. Está a ser feito um cadastro exaustivo das redes de condutas (em que é aferida a sua antiguidade e materiais), que vai também permitir sinalizar as ruturas, para que possamos priorizar intervenções. Claro está, pressupõe o cruzamento de dados com o Município, de modo a perceber quais as artérias mais urgentes. 


- Refere-se ao programa Rua Direita?
- Certo. A gestão da água tem um grande impacto na discussão urbanística. O Rua Direita nasce dessa união de vontades: da parte da Águas do Porto, relacionada com a eficiência ou com a urgência ambiental; do lado da autarquia, para promover arranjos urbanísticos. As obras com intervenções diretas nas redes de abastecimento, pluviais e residuais, dependendo dos locais, serão geridas por nós. 


- A urgência ambiental que mencionou repercute-se em que ações?
- Passa não só pela redução das perdas no abastecimento, mas também pela redução das afluências indevidas que entram nas águas pluviais, que podem contaminar o sistema. Há dois tipos de poluição: as descargas feitas ilicitamente e as que resultam em falhas da rede. É algo que nos preocupa e que temos combatido. Aliás, temos vindo a discutir com a Entidade Reguladora, no sentido de que reconheça a importância da gestão das águas pluviais como algo que deve ser regulado. O Porto não tem muitos casos de inundação e comporta-se bem em comparação com outras cidades. 


- Existem mecanismos de monitorização?
- Não podendo fazer uma monitorização contínua em todas as redes, estamos a apostar na introdução de sensores, que terão ligação à plataforma H2PORTO. É um caminho árduo, porque o Porto tem um conjunto de linhas de água, pelo que é obrigatório estabelecer prioridades de intervenção: nas ribeiras com maior impacto na população (sendo que no território há perto de 70 km de ribeiras cadastradas, grande parte delas entubadas), e nos locais onde um eventual foco de poluição seja mais perigoso. Outro fator importante: qualquer cidadão tem a obrigação de, perante um fenómeno anormal, denunciar. 
Naturalmente, compete à Águas do Porto agir e ser a primeira a reagir. De todo o modo, apostamos na sensibilização, através de campanhas de limpeza nas margens das nossas ribeiras. 


- De que forma o projeto Porto Gravítico, realizado em parceria com a UP, veio revolucionar a distribuição de água na cidade?
- É um projeto de referência que foi implementado antes do anterior mandato. Diria que é responsável por dois grandes ganhos de gestão na empresa municipal: o primeiro, de redução de perdas; o segundo, ao nível da eficiência energética. O Porto tem hoje a maioria da sua rede a operar de forma gravítica, tirando a zona dos Congregados. Isto permite-nos reduzir os custos de energia associados a bombagens e, ao mesmo tempo, otimizar a gestão de pressões. 


- Que etapas percorre a água até chegar às nossas casas?
- O ciclo da água começa fora do Porto, com a captação executada pela Águas do Douro e Paiva, nossa fornecedora e responsável pelo tratamento da água. A entrega é feita nos reservatórios da cidade, distribuída aos nossos clientes e recolhida após a sua utilização. Simultaneamente, há outros ciclos que envolvem a precipitação e a evaporação. A Águas do Porto baseou a sua atividade no modelo de origem australiana - o Water Sensitive Urban Design, que potencia a permeabilidade, facilita a evapotranspiração e menoriza ao máximo o escoamento pluvial nas ribeiras. Há também a componente do tratamento completo das águas residuais, realizado pelas duas ETAR. São estações com 20 anos, mas muito avançadas do ponto de vista técnico e cumprem na totalidade os parâmetros da devolução desta água ao meio natural. 


- Numa escala de 1 a 10, que valor atribui à qualidade da água do Porto?
- Sem hesitar, 10. O Porto tem uma água de qualidade ótima. Fechámos o ano anterior com 99,77% de qualidade aferida. 


- Como está a correr a campanha "Beba Água do Porto: É boa todos os dias!"?
- Muito bem. Quando chegámos há cinco anos, fizemos um inquérito para perceber a percentagem da população que não bebia água do Porto, e percebemos que é um número relativamente elevado, cerca de um terço. Muita gente dizia que não bebia porque tinha dúvidas da sua qualidade. 


- Que importância atribui à Declaração do Porto, assinada em 2017 na Porto Water Innovation Week?
- A organização desta iniciativa foi um marco na afirmação internacional da Águas do Porto. Houve sete cidades da União Europeia que concorreram e nós ganhámos. Na generalidade, tratou-se de formalizar um desafio que havia sido lançado pela Comissão Europeia às cidades, no sentido de estas reconhecerem a importância da gestão da água e do compromisso de promoverem ações de consciencialização junto da população, por meio de um referencial comum. 
Até ao arranque efetivo desta convenção, que deverá acontecer no próximo ano, é vontade que a lista das 18 cidades subscritoras aumente. 


- O desvio da linha de água do subsolo do Mercado do Bolhão foi determinante para a obra de restauro que já se iniciou?
- Foi das obras mais desafiantes que tivemos, de uma complexidade enorme. Desviámos um curso de água que atravessava o Bolhão na diagonal (entre a Rua Fernandes Tomás e a Rua de Sá da Bandeira). Na Rua Fernandes Tomás passava acima de uma estrutura "tão pouco relevante" como a linha de metro. Construímos um poço de bombagem nessa rede, que ficou a menos de três metros do topo da aduela do metro. Isso criou-nos uma grande preocupação: dentro do túnel do metro, qualquer assentamento ou infiltração poderia trazer implicações gravíssimas. Além de que tínhamos um prazo de execução muito ambicioso, percebendo que a jusante desta intervenção estava o restauro do Bolhão. 
Foi uma obra muito delicada, gerida ao milímetro e que ficou concluída com um desvio mínimo no prazo e no custo (o valor da obra aproximou-se dos 800 mil euros). Em retrospetiva, foi a oportunidade de estarmos associados a este grande projeto. 


- Na exigente empreitada de Santos Pousada/Campo 24 de Agosto houve alguma coisa que teria feito hoje de diferente?
- Era nossa obrigação resolver o maior problema ao nível de escoamento das águas pluviais que a cidade tinha. A estação de metro do Campo 24 de Agosto criou um "tampão" no escoamento de águas pluviais que atormentava toda a zona nos dias de maior precipitação. Infelizmente, no meio disto, sofremos um constrangimento legal que não pudemos contornar, ditado pela contratação pública. O empreiteiro entrou numa fase difícil e, com isso, condicionou os meios afetos à obra. Tínhamos duas situações possíveis: continuar a obra com menos frentes em simultâneo; ou fazer um "resgate" da empreitada, o que implicava abrir novo concurso público, sem certezas também quanto ao empreiteiro que viria. No mínimo, demoraria meio ano, e nessa altura a Rua de Santos Pousada já estava completamente aberta. Tomámos assim a decisão de não parar a obra, mesmo que a um ritmo mais lento.  
Não negamos que para a população houve alturas complicadas, mas olhando para o que poderia ter sido, julgo que foi decisão mais sensata. 


- A contratação pública foi então o maior entrave à obra?
- Sem dúvida, mas estamos sujeitos a ela. Entretanto, tomando a consciência do que esta obra provocou, a Águas do Porto desenvolveu um programa de qualificação de empreiteiros. Atualmente, para uma obra que seja maioritariamente de abastecimento ou de saneamento, só um grupo restrito de empreiteiros - com um conjunto de meios físicos, financeiros e humanos devidamente cadastrados - pode concorrer. Sei que não há muitas empresas, sobretudo locais e públicas, que tenham criado esta solução preventiva. Não sendo à prova de bala, dificulta que outros casos como aquele aconteçam. 


- Quando reabre o Pavilhão da Água?
- A obra está quase concluída. A empreitada teve duas grandes fases: ampliação e reabilitação. Recordo que o Pavilhão foi construído para a Expo 98, para durar seis meses e existe há 20 anos. Foi relocalizado no Parque da Cidade e, dada a proximidade ao mar e sendo uma estrutura de madeira, acaba por ter maior desgaste. Quando fizemos uma inspeção ao estado da estrutura apercebemo-nos de que precisava de reabilitação urgente. Tinha também algumas limitações: a bilheteira era do lado de fora e não havia loja de merchandising. Faltavam condições ao auditório para o nosso público-alvo, que são as escolas. E, sobretudo, a maior parte das experiências eram de 98. Agora, terão uma componente digital muito forte. A instalação avança ainda este verão, prevendo-se que a reabertura se concretize durante o mês de outubro, num investimento que rondou os 900 mil euros. 


- Que mais desafios estão identificados?
- Temos alguns projetos em curso, que constituem respostas concretas a alguns objetivos e metas já identificadas. Destaco neste campo a continuidade na redução de perdas; a criação de novos canais de comunicação com os clientes; a expansão do parque de contadores de telemetria e dos sistemas de sensorização das nossas redes; a aposta na inovação; e o investimento nas nossas ETAR, com o intuito de promover uma nova economia circular nestes equipamentos, em torno da reutilização de água, da valorização das lamas e do aumento da eficiência energética de todo o processo. Na gestão das praias e ribeiras estão já em curso alguns estudos que permitam promover a melhoria destas massas de água.  
Numa perspetiva distinta, estamos igualmente a criar mecanismos internos que facilitem a gestão de longo prazo da empresa. A conclusão do Plano Estratégico que servirá de base aos Planos Diretores de Abastecimento e Saneamento da cidade; a implementação de um modelo de Gestão Patrimonial de Ativos que permitirá planear e priorizar os investimentos futuros; a certificação da empresa em Qualidade e Ambiente, e o estudo sobre a renovação do nosso quadro de pessoal, constituem os maiores exemplos desta perspetiva de melhoria interna. Este último aspeto afigura-se particularmente importante numa empresa que possui uma média de idades avançada (a antiguidade dos quadros ronda, em média, os 23 anos), e que tem como um dos seus maiores ativos, o conhecimento, a experiência e a valia dos seus colaboradores.